domingo, 26 de fevereiro de 2012

The Artist, The Descendants & The Help. And the Oscar goes to....



The Artist é um filme majestoso. Um filme sobre cinema, sem dúvida um dos meus meta-textos favoritos, com o extra de ser um filme mudo sobre cinema mudo, matrioska effect. A cena do pesadelo com som é uma das mais bem conseguidas de todo o filme e mostra-nos o quanto este argumento se consegue manter fiel à ingenuidade dos filmes mudos ao mesmo tempo que ousa a vários outros níveis. Parece que The Artist vem trazer algo mais ao cinema clássico mudo, como se fosse um "behind the scenes" ou "director's cut" onde nos nos é mostrado o que os filme da época acabam por não dizer. 
Ao ver o The Artist foi impossível não me recordar de um dos meus livros favoritos de Auster: O livro das Ilusões e ao mesmo tempo do glorioso dia em que a Sociedade Martins Sarmento em Guimarães me proporcionou aos 8 anos uma sessão de cinema (talvez a segunda da minha vida) com o filme Modern Times de Chaplin. O The Artist é um bom filme por vários motivos: pelo excelente argumento, pela fotografia, banda sonora, pelos desempenhos e pela audácia. 
É preciso coragem para fazer um filme destes no Cinema dos nossos dias, no entanto e apesar de ter adorado o filme, ponho em causa o seu impacto em função apenas da diferença que apresenta. The Artist é sim um filme excelente, o desempenho teatral de Jean Dujardin é irrepreensível e um sério candidato a roubar o Oscar de melhor actor a Clooney, mas não estaremos nós perante um fenómeno do estilo The Avatar invertido? Será The Artist realmente o melhor filme do ano ou apenas um excelente filme que fez a diferença em 2011? Saberemos a resposta mais logo.

The Descendants é na minha opinião verdadeiramente o melhor filme do ano. Alexander Payne já nos tinha habituado a este cinema tão aparentemente simples como mordaz. O género comédia-drama com um argumento brilhante a fazer lembrar grandes independentes dos últimos anos como Little Miss Sunshine, Juno ou mesmo Sideways. Os diálogos tão milimetricamente escritos, o efeito murro no estômago após uma gargalhada, a identificação com as personagens que parecem falar tão intimamente de nós, as imagens de um Hawaii tão paradisíaco como surpreendentemente banal a contrastar com os close-ups do rosto da personagem Liz em estado de coma e o eterno sentimento de "viagem de encontro de nós próprios" que os filmes como os supra mencionados nos trazem sempre. 
Costumo dizer que existem dois tipos de histórias: as histórias fantásticas contadas de uma forma simples e as histórias simples contadas de uma forma fantástica. É fácil perceber que as que mais me agradam são as segundas e The Descendants é um excelente exemplo disso. Tenho dúvidas no entanto que a academia tenha coragem de premiar um filme como este. É um filme difícil de ser compreendido tal como ele é pelo espectador comum, é um filme a roçar o cinema independente, com um George Clooney "velho e acabado" a representar de forma brilhante pouco mais do que o papel dele próprio. Um filme de contrastes, triste, duro, pesado, perturbador. "Goodbye Elisabeth. Goodbye, my love, my friend, my pain, my joy. Goodbye. Goodbye. Goodbye." Se vale de alguma coisa foi também o único filme que fez chorar... O prémio para o argumento não lhe escapará, os outros fico a torcer para que também não. 

Por fim The Help, o tipo de filme que que me fez exclamar após o ter visto "assim se faz um Oscar". The Help é de todos os nomeados aquele que teve um maior sucesso de bilheteira e facilmente se entende. É o tipo de história que cabe na primeira definição que dei em cima, fantástica e no entanto contada de forma simples. É um filme sobre um dos temas que mais toca na ferida Americana, a segregação racial e a tomada de posse de consciência social, principalmente numa época em que o chefe de estado em vigor é o primeiro negro a ser eleito presidente. The Help é um filme que vale essencialmente pelo colectivo, não só pelas histórias tão distintas como interessantes do que se passa em cada uma daquelas casas do Mississipi, como pelos actores que juntos formam o melhor elenco de 2011 já distinguido pelos SAG. The Help tem tudo ser o vencedor do ano: faz-nos rir enquanto nos enche o peito de revolta com as injustiças sociais da época; tem um herói e um vilão para além de todo um conjunto de personagens redondinhas e bem trabalhadas (3 nomeações para os Oscars na categoria de interpretações); tem uma lição de moral e um final feliz que Hollywood tanto gosta para além da lição de história e respectivo lembrete a todos os quantos se possam ter esquecido, que um dia nos EUA os negros eram tratados assim. 
Ao olhar para a lista de nomeados no entanto não creio que The Help saia vencedor. A Academia parece-me menos cínica de ano para ano e prova disso são estes três filmes de que falei, tão diferentes uns dos outros, no entanto em quase par de igualdade a nível de qualidade cinematográfica. 

E porquê estes 3 no título do post anual dos Oscars? Porque foram os meus favoritos e sem dúvida os grandes candidatos a melhor filme. Deixo de fora o Moneyball que me pareceu um filme honestamente mal conseguido; The Tree of Life com um excelente argumento, fotografia e desempenho de Brad Pitt (aqui sim) mas que não é um filme para Oscar e que merecerá neste blog um post por si só; Hugo que mostra tão bem o quanto Scorsese é acima de tudo um "cinema lover" mas que não cai no meu goto pelo género aventura/ fantástico; Midnight in Paris que pelas razões que já expliquei aqui me parece um filme demasiado comercial e no entanto extremamente decepcionante; e Extremely Loud & Incredibily Close e War Horse por infelizmente ainda não os ter visto. No ar deixo ainda uma pergunta: Where the hell is Drive?

Bons Oscars para todos. Espero que Billy Crystal cale o mundo ao mostrar que ainda sabe o que faz, ao contrário do que aconteceu no conjunto de péssimas apresentações dos últimos anos. E finalmente que ainda que não ganhe melhor, que esta noite seja riquíssima a nível cinematográfico. 

7 comentários:

Ego disse...

Concordo com a opinião do artista e com a opinião sobre as serviçais. Nao concordo de maneira nenhuma com a opinião dos descendentes.

Hei, mas se todos fossemos pelo azul era uma monotonia.

Rearviewmirror disse...

1º Moneyball
2º The Help
3º The Artist
4º War Horse
5º Hugo

Descendentes é apenas um bom filme, não filme de oscares.

Raquel Fernandes disse...

Ego por isso mesmo que dificilmente ganhará, não é filme fácil de gerar consensos. Não é um filme de oscars tal como o Rearviewmirror diz e bem, mas para mim não deixará de ser o melhor :) Ficarei também feliz com a vitória do The Artist, aliás quase certa.

Rearviewmirror, não consegui gostar do Moneyball. Achei que é o tipo de filme que tinha tudo para ser genial e falha. Não gosto da montagem, não gosto da falta de desenvolvimento das personagens do Jonah Hill e do Phillip Seymour Hoffman e acho que o argumento tem falhas (talvez pela montagem). Mas certo é que recebeu 6 nomeações, talvez eu não tenha conseguido chegar ao que o filme realmente é.

Pandora disse...

Na minha opinião os merecedores seria entre "O artista" e "A invenção de Hugo". São duas excelentes histórias sobre sonhos e sobre a história do cinema. Adorei os dois!
E a Meryl Sreep tem que ganhar o óscar pela "Dama de Ferro"!

***

Raquel Fernandes disse...

Não vi a Dama de ferro, uma falha enorme. Também acho que será ela a ganhar apesar da simpatia pela Viola Davis.

Pedro disse...

É capaz de te interessar -

http://www.tracksounds.com/specialfeatures/cue/2011/cue_awards_2011_wrap_up.htm

E já agora, presente de fim-de-semana :)

http://www.youtube.com/watch?v=TzmFVYO_unk

Por que você faz poema? disse...

Muito me encantou O Artista,
Mas letras de verificação me deprimem.