quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Kafka e a Boneca



Esta é uma história veridica sobre Kafka que li no livro "As Loucuras de Brooklyn" de Paul Auster. Poderia até contá-la pelas minhas palavras, como fiz tantas vezes a tantas pessoas de quem gosto. Esta é uma das minhas histórias favoritas e quase todas as pessoas que me rodeiam acabaram por a ouvir pela minha boca num ou outro momento mais nostálgico. No entanto a escrita de Paul Auster é demasiado boa para que a menosprezasse e por isso aqui fica o excerto completo que ontem cheia de sono ainda me vi capaz de transcrever. Atenção às últimas palavras destacadas. Nelas está tudo o que penso sobre literatura, cinema e ficcção em geral. Está tudo o que penso sobre a vida.


 
É o último ano da vida de Kafka  ele apaixonou-se por Dora Diamant, uma jovem de dezanove ou vinte anos que fugiu da casa dos pais na Polónia, pretencia a uma família que aderira ao chassidismo, e que agora vive em Berlim. Dora tem metade da idade dele, mas é ela que lhe dá coragem para abandonar Praga, uma coisa que ele queria fazer há anos. É ela também que se torna a primeira e a única com quem o escritor vive. Kafka chega a Berlim no Outono de 1923 e morre na Primavera seguinte, mas esses últimos meses são provavelmente os mais felizes de toda a sua curta vida. Apesar da saúde deteriorada. Apesar das condições sociais em Berlim: o racionamento de géneros alimenticios, uma forte turbulência politica, a pior inflação da história da Alemanha. Apesar de ele não nutrir a menor ilusão quanto ao facto que já não viverá muito tempo.

Todas as tarde, Kafka vai ao parque dar um passeio. A maior parte das vezes, Dora acompanha-o. Um dia, cruzam-se com uma vida banhada em lágrimas, soluçando até mais não poder. Kafka pergunta-lhe o que se passa e ela diz que perdeu a sua boneca. Nesse instante, o escritori começa a inventar uma história para explicar o que aconteceu. "A tua boneca foi fazer uma viagem", diz ele. "Como é que o sonhor sabe?", pergunta a pequena. "Porque ela me escrevu uma carta", responde Kafka. A miuda parece desconfiada. "E traz a carte consigo?", pergunta. "Não, lamento muito, mas não a tenho comigo", diz ele. "Deixei-a em casa por engano, mas trago-a amanhã." Kafka é tão convincente que a maiuda já não sabe o que pensar. Será possível que aquele misterioso homem esteja a dizer a verdade?

Kafka vai imediatamente para casa a fim de escrever a carta. Senta-se à secretária e começa. Dora observa-o e repara que ela está a escrever a carta da boneca exactamente com o mesmo empenho e tensão com que sempe escreveu a sua própria obra. Se há coisa que ele não quer é defraudar a menina.  Trata-se de um verdadeiro trabalho literário e Kafka está determinado a fazê-lo bem feito. Se conseguir criar uma mentira tão bela quanto convincente, a sua criação suplantará o sentimento de perda da menina, oferecendo-lhe uma realidade diferente, uma realidade falsa, talvez, mas algum de verdadeiro e verosímel segundo as leias da ficção.

No dia seguinte, Kafka não descansa enquanto não chega ao parque com a carta. A menina está à espera dele, e como não sabe ler, é o escritor que lhe lê a carta. A boneca diz que tem muita pena do que aconteceu, mas já estava cansada de viver com as mesmas pessoas o tempo todo. Precisa de deixar o seu pequeno mundo, precisa de conhecer o grande mundo, precisa de fazer novas amizades. Não que ela não adore a menina, porque adora, mas a verdade é que ela está desejosa de ver outras paisagens, e, portanto, têm de separar-se por algum tempo. Por fim, a boneca promete à menina que lhe escreverá todos os dias e a que manterá a par das suas actividades.

É aqui que uma pessoa começa a ficar de corção partido... Já é espantoso que Kafka se tenha dado ao trabalho de escrever a primeira carta, mas, agora, há mais, agora, Kafka compromete-se a escrever uma carta todos os dias, e unicamente para consolar a menina, que para ele não passa de uma perfeita desconhecida, uma criança com quem se cruzou por um mero acaso numa determinada tarde, algures num parque de Berlim. Que espécie de homem faz uma coisa dessas? Ele escreveu as cartas da boneca durante três semanas. Três semanas...! Um dos mais brilhantes escritores de sempre sacrificando o seu tempo, o seu tempo cada vez mais precioso e reduzido, para redigir cartas imaginárias de uma boneca perdida. Dora diz que ele escrevia todas as frases com uma atenção extrema ao pormenor, tão extrema que acabava por se tornar penosa. Diz ainda que a sua prosa era precisa, divertida, cativante. Por outras palavras, aquilo era prosa de Kafka, e, todos os dias, durante três semanas o escritor foi ao parque e leu uma nova carta à menina.

A boneca cresce, vai à escola, conhece outras pessoas. Continuava a assegurar à menian que gosta muito dela, mas sugere que houve determinadas complicações na sua vida que a impedem de regressar. A pouco e pouco, Kafka prepara a menina para o momento em que a boneca desaparecerá para sempre da sua vida. Esforça-se por criar um desfecho satisfatório, preocupado com a possibilidade de aquele encantamento mágico se quebrar, e isso acontecerá, se ele não conseguir um desfecho adequado. Depois de testar várias possibilidades, toma finalmente a decisão de casar a boneca. Descreve o jovem por quem ela se apaixona, descreve a festa de noivado, o casamento na província, até mesmo a casa onde a boneca e o seu marido agora vivem. E é então que, na última linha a boneca se despede da sua velha e muito querida amiga.

Por essa altura, é claro que a menina já não sente a falta da boneca. Kafka oferece-lhe outra coisa para substituir a boneca e, quando as três semanas chegam ao fim, as cartas já a curaram da sua infelicidade. A menina tem a história, e quando uma pessoa tem a sorte de viver dentro de uma história, de viver dentro de um mundo imaginário, as dores deste mundo desaparecem. Porque, enquanto a história dura, a realidade cessa de existir.
 
Paul Auster (2006)

5 comentários:

Anónimo disse...

pois eu depois de ler nunca mais me esqueci da trilogia de nova york do Auster ...

kiss rachel

sofia

Panurgo disse...

Ah, então era esta...

Muito gostam as mulheres desta história... talvez por ter sido a própria Dora a inven... ah, a relatá-la :)

Raquel Fernandes disse...

Hahaha :) Eu gosto principalmente da forma como o Auster a escreve, daquele paragrafo final.

Panurgo disse...

"Aplaudamos aquele grego de Argos, cuja loucura o levava a passar dias inteiros no teatro, sozinho, a rir e a aplaudir como se estivesse a representar as mais belas comédias, quando afinal nada ouvia. A sua vida era normal em tudo o resto, conduzindo-se em tudo com perfeição...

Os cuidados da família e os remédios dos médicos curaram-no. Retomou o juízo e queixava-se nestes termos: "Por Pollux, deram-me a morte, amigos! Não me salvaram ao tirar-me a alegria, ao forçarem-me a abandonar a mais grata ilusão do meu espírito".

Skinny Love disse...

só passei para de dizer que o nome do teu blog é a coisa mais fixe que há. Também quero uma residência fixe nas nuvens :3

Um beijinho * Monstros no Armário