domingo, 17 de abril de 2011

Se te dessem essa oportunidade, com quem gostarias de te sentar à mesa de jantar?


Há dez minutos atrás, estava deitada numa esteira de madeira no meu bikini vermelho a bronzear-me enquanto lia o último de Paul Auster: Sunset Park. Em duas horas li cerca de 100 páginas, mas ao longo dessas duas horas o processo foi-se tornando tão penoso que ao contrário de há dez minutos atrás encontro-me deitada na rede brasileira, estrategicamente posicionada à sombra, com o computador nas pernas. Tenho uma verdadeira obsessão por ter a pele bronzeada, já lhe chamaram tanorexia, mas sou absolutamente incapaz de conseguir ficar mais de quize minutos ao sol sem fazer nada. Entre ouvir música, arrancar bocados de relva, observar o cão ou contar os milhares de pedaços de algodão que pairam no ar como nesta tarde, nada me ajuda mais na minha tarefa de bronzear o corpo do que a leitura. Por isso vestir um bikini para mim equivale a agarrar num livro ou numa revista que me prenda algum tempo na toalha. E assim já li vários livros de Paul Auster, alguns num dia apenas, naqueles dias fabulosos de praia no Algarve em que um livro demasiado bom não me permite ir a banhos sequer.

Sei que este vicio vem desde sempre porque me lembro claramente que no primeiro Verão em que já andava na escola, com seis anos, a minha mãe me oferecia um pequeno livro infantil por dia. Era a forma de me arrastar para a praia de manhã quando queria ficar mais umas horas na cama. Sempre quis ficar mais umas horas na cama... Com 15 anos contei o número de livros que li nesse Verão e não me lembro o número exacto mas sei que ultrapassou as quatro dezenas. Nessa altura já lia romances, aliás praticamente só lia romances, que apesar da tradução de novels para português nada tinham de romântico porque nunca fui dada a finais felizes.

Comecei cedo a ler Paul Auster. O primeiro livro que li foi o Livro das Ilusões logo que foi lançado e fiquei apaixonada pela sua escrita. Em menos de nada comprei toda a sua obra publicada inclusivé a antologia de pequenos contos escritos por outros e que lia num programa de rádio aos fins de semana. Recebi o Sunset Park como prenda do dia de Reis e é uma vergonha para mim que ainda não o tenha lido, por isso hoje foi a minha escolha óbvia para acompanhar um dos primeiros bikinis do ano. Mas não consegui. Auster tornou-se ao longo dos anos mais complexo, mais acutilante ou talvez eu me tenha tornado assim.  O sol demasiado forte encadeia-me os olhos e as minhas pestanas demasiado longas dificultam o processo de ler com os olhos semi cerrados. Por isso abdiquei do sol porque um Auster não merece ser lido assim aos tropeções e sim com toda a atenção que lhe posso dedicar. Ao arrumar a esteira de madeira, a toalha, o creme solar e tudo que me acompanha na minha "tanorexia" assolou-me um pensamento que fez ter vontade de ligar o computador e escrever este texto: se eu pudesse escolher com quem e onde jantar a minha resposta seria sem dúvida com Paul Auster e a sua mulher Siri na casa onde vivem em Brooklin. E entretida nesse pensamento subi as escadas de pedra que separam a relva onde me deito ao sol da rede onde estou agora.

Imagino que demasiado nervosa por estar com uma pessoa cuja escrita admiro falaria demais nesse jantar e diria coisas sem sentido. Quando lemos muito uma pessoa ficamos com a falsa sensação de a conhecer, mas a verdade é que qualquer escritor fala de si nos seus livros e Auster não é excepção. Recordo quando li a Trilogia de Nova Iorque e o episódio em que alguém liga para a casa do personagem principal e diz: -Estou a falar com Paul Auster, o escritor? E recordo também como na altura pensei em como Auster era grande por ter feito deste detalhe a mais deliciosa forma de imodéstia merecida.
Por isso se fosse jantar com Auster e a sua mulher provavelmente iria falar demasiado de mim para não cair na tentação de falar demasiado dele. Julgo que talvez não fosse necessário porque ele o faria com naturalidade mas caso não acontecesse de certeza que sei do falariamos. De cinema. Sim, porque não há ninguém que descreva um filme e que me impressione tanto como Paul Auster e eu não sou facilmente impressionável. Não quereria debater os seus livros para ficar com a mesma incómoda sensação/ desilusão que fiquei quando conheci a casa de Anne Frank da mesma forma que não lhe iria pedir que me autografasse um exemplar por não achar graça a esse acto.

Aconteceu-me uma única vez, com Luis Sepúlveda na apresentação de um livro dele que não consegui passar da vigésima página por achar demasiado mau. Na apresentação do livro que fui enquanto jornalista, ainda hoje guardo essa reportagem no caderno de couro onde estão as minhas primeiras peças publicadas, percebi logo que não iria gostar do livro. E enquanto ele o assinava só pensava que azar o meu em não ter trazido o Diário de um Killer Sentimental, livro de que realmente gostei e me fez apaixonar pela sua escrita. Qual acto irrefletido, ataquei o último livro que tinha lido dele, Uma História Suja, como sendo demasiado de esquerda e acusei-o de ser o Chomsky da América Latina, ao que ele me respondeu ser um elogio e que lamentava que eu não gostasse de toda a sua obra, mas que não podiamos gostar todos do mesmo. E desde aí nunca mais li Sepúlveda. E por isso Auster no nosso jantar imaginário com a sua mulher também escritora na casa de Brooklin, não iria assinar nenhum dos exemplares que possuo da sua obra nem tampouco debater as ideias que retirei e que tanto me inspiraram de cada livro. Aconteceu com Anne Frank, aconteceu com Sepúlveda, não o iria permitir que acontecesse com Auster. O tipo de escritor que me consegue levar para a sombra num dia de sol como este.

2 comentários:

J disse...

Ahaha Gostei tanto :)

Pseudo disse...

Engraçada coincidência: eu ando a descobrir Auster há alguns anos, sempre com o mesmo prazer do início, e ainda não me deu para escrever sobre os livros. Talvez este teu texto seja o pontapé que me faltava.