sábado, 3 de dezembro de 2011

Museu Reina Sofia e o que trouxe de lá

Propositadamente perdida em Madrid, absorta num daqueles sítios que nos fazem sentir vivos. Esses edificios carregados de aquilo que nos conta o nosso presente, o nosso futuro e o nosso passado. Aqueles sitios a que alguns com desdém chamam museus. Um museu nunca é só um museu. Um museu é sempre uma viagem. Senão mais, aos nossos sentidos. O melhor de 3 horas passadas no Reina Sofia.


Para uma estudante de cinema é sempre uma excitação encontrar algo referente a Godard. Principalmente Le Chinoise numa televisão sem comando. Daquelas a que agora chamam "caixas" no meio de tantas instalações com tecnologia audiovisual de ponta. Simplesmente emocionante.


Construção, desconstrução. Metáfora perfeita da arte.


Numa instalação de um artista brasileiro sobre a democratização da arte na América Latina, umas palavras que me fizeram pensar. E ter saudade de quem de direito.


...


Bunuel pintado por Dali. Mais precioso ainda o repertório de cartas trocadas entre eles, que não fotografei mas que tive o prazer de ler. Ya lo sabes que Luis, Frederico (Llorca) y Dali son "los" amigos...


O Enigma de Hitler por Dali. Admito que há quadros de Dali cujo surrealismo ultrapassa os meus canones de gosto. Mas este tem tanto de perfeito como de provocador. Focado, asustadoramente focado. Um retrato perfeito da Segunda Guerra Mundial.


Sinto-me infinitamente culpada por não ter memorizado o autor desta fotografia. Em tantas centenas que vi, esta pequena moldura captou a minha atenção. Garanto que são Europeus e que teve lugar nos anos 40. Lamento não saber mais. Suponho que tenha de lá regressar.


É só um iman com a frase de Antoni Muntadas. Mas diz tudo.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Kafka e a Boneca



Esta é uma história veridica sobre Kafka que li no livro "As Loucuras de Brooklyn" de Paul Auster. Poderia até contá-la pelas minhas palavras, como fiz tantas vezes a tantas pessoas de quem gosto. Esta é uma das minhas histórias favoritas e quase todas as pessoas que me rodeiam acabaram por a ouvir pela minha boca num ou outro momento mais nostálgico. No entanto a escrita de Paul Auster é demasiado boa para que a menosprezasse e por isso aqui fica o excerto completo que ontem cheia de sono ainda me vi capaz de transcrever. Atenção às últimas palavras destacadas. Nelas está tudo o que penso sobre literatura, cinema e ficcção em geral. Está tudo o que penso sobre a vida.


 
É o último ano da vida de Kafka  ele apaixonou-se por Dora Diamant, uma jovem de dezanove ou vinte anos que fugiu da casa dos pais na Polónia, pretencia a uma família que aderira ao chassidismo, e que agora vive em Berlim. Dora tem metade da idade dele, mas é ela que lhe dá coragem para abandonar Praga, uma coisa que ele queria fazer há anos. É ela também que se torna a primeira e a única com quem o escritor vive. Kafka chega a Berlim no Outono de 1923 e morre na Primavera seguinte, mas esses últimos meses são provavelmente os mais felizes de toda a sua curta vida. Apesar da saúde deteriorada. Apesar das condições sociais em Berlim: o racionamento de géneros alimenticios, uma forte turbulência politica, a pior inflação da história da Alemanha. Apesar de ele não nutrir a menor ilusão quanto ao facto que já não viverá muito tempo.

Todas as tarde, Kafka vai ao parque dar um passeio. A maior parte das vezes, Dora acompanha-o. Um dia, cruzam-se com uma vida banhada em lágrimas, soluçando até mais não poder. Kafka pergunta-lhe o que se passa e ela diz que perdeu a sua boneca. Nesse instante, o escritori começa a inventar uma história para explicar o que aconteceu. "A tua boneca foi fazer uma viagem", diz ele. "Como é que o sonhor sabe?", pergunta a pequena. "Porque ela me escrevu uma carta", responde Kafka. A miuda parece desconfiada. "E traz a carte consigo?", pergunta. "Não, lamento muito, mas não a tenho comigo", diz ele. "Deixei-a em casa por engano, mas trago-a amanhã." Kafka é tão convincente que a maiuda já não sabe o que pensar. Será possível que aquele misterioso homem esteja a dizer a verdade?

Kafka vai imediatamente para casa a fim de escrever a carta. Senta-se à secretária e começa. Dora observa-o e repara que ela está a escrever a carta da boneca exactamente com o mesmo empenho e tensão com que sempe escreveu a sua própria obra. Se há coisa que ele não quer é defraudar a menina.  Trata-se de um verdadeiro trabalho literário e Kafka está determinado a fazê-lo bem feito. Se conseguir criar uma mentira tão bela quanto convincente, a sua criação suplantará o sentimento de perda da menina, oferecendo-lhe uma realidade diferente, uma realidade falsa, talvez, mas algum de verdadeiro e verosímel segundo as leias da ficção.

No dia seguinte, Kafka não descansa enquanto não chega ao parque com a carta. A menina está à espera dele, e como não sabe ler, é o escritor que lhe lê a carta. A boneca diz que tem muita pena do que aconteceu, mas já estava cansada de viver com as mesmas pessoas o tempo todo. Precisa de deixar o seu pequeno mundo, precisa de conhecer o grande mundo, precisa de fazer novas amizades. Não que ela não adore a menina, porque adora, mas a verdade é que ela está desejosa de ver outras paisagens, e, portanto, têm de separar-se por algum tempo. Por fim, a boneca promete à menina que lhe escreverá todos os dias e a que manterá a par das suas actividades.

É aqui que uma pessoa começa a ficar de corção partido... Já é espantoso que Kafka se tenha dado ao trabalho de escrever a primeira carta, mas, agora, há mais, agora, Kafka compromete-se a escrever uma carta todos os dias, e unicamente para consolar a menina, que para ele não passa de uma perfeita desconhecida, uma criança com quem se cruzou por um mero acaso numa determinada tarde, algures num parque de Berlim. Que espécie de homem faz uma coisa dessas? Ele escreveu as cartas da boneca durante três semanas. Três semanas...! Um dos mais brilhantes escritores de sempre sacrificando o seu tempo, o seu tempo cada vez mais precioso e reduzido, para redigir cartas imaginárias de uma boneca perdida. Dora diz que ele escrevia todas as frases com uma atenção extrema ao pormenor, tão extrema que acabava por se tornar penosa. Diz ainda que a sua prosa era precisa, divertida, cativante. Por outras palavras, aquilo era prosa de Kafka, e, todos os dias, durante três semanas o escritor foi ao parque e leu uma nova carta à menina.

A boneca cresce, vai à escola, conhece outras pessoas. Continuava a assegurar à menian que gosta muito dela, mas sugere que houve determinadas complicações na sua vida que a impedem de regressar. A pouco e pouco, Kafka prepara a menina para o momento em que a boneca desaparecerá para sempre da sua vida. Esforça-se por criar um desfecho satisfatório, preocupado com a possibilidade de aquele encantamento mágico se quebrar, e isso acontecerá, se ele não conseguir um desfecho adequado. Depois de testar várias possibilidades, toma finalmente a decisão de casar a boneca. Descreve o jovem por quem ela se apaixona, descreve a festa de noivado, o casamento na província, até mesmo a casa onde a boneca e o seu marido agora vivem. E é então que, na última linha a boneca se despede da sua velha e muito querida amiga.

Por essa altura, é claro que a menina já não sente a falta da boneca. Kafka oferece-lhe outra coisa para substituir a boneca e, quando as três semanas chegam ao fim, as cartas já a curaram da sua infelicidade. A menina tem a história, e quando uma pessoa tem a sorte de viver dentro de uma história, de viver dentro de um mundo imaginário, as dores deste mundo desaparecem. Porque, enquanto a história dura, a realidade cessa de existir.
 
Paul Auster (2006)

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Un sueno muy raro...


Soñe contigo y fue un sueño SUPER RARO. Nada mas que añadir, tenia que decirtelo: muy muy raro. Ya se que te parecerá extraño, a mi mucho mas, pero me mola contartelo.
Tu de que vas? 3-4 años y apareces un dia en mi puta cabeza mientras duermo. Veo mujeres todos los dias y apareces TU. No puede ser... No puede ser. Te paseabas en pelotas por mi salon. Obviamente si te paseas en pelotas en mi casa no voy a decirte que te vistas LOGICAMENTE.

/dos sonhos.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Midnight in Paris (pequeno texto crítico)


Pareço ser das poucas pessoas que não gostou do novo filme de Woody Allen. Eu acho que se o filme fosse assinado por uma qualquer realizador estranho e não Woody Allen, muitas das opiniões positivas que se levantaram seriam diferentes (mas é apenas uma suposição). Eu achei o filme fraco, bastante fraco. A ideia não é propriamente nova e também não é executada da melhor forma. Os actores parecem desmotivados, Owen Wilson como alter Ego do próprio Allen não convence pois se o copia em demasiado em determinados movimentos ou expressões, falha no comportamento que tem perante os seus "heróis do passado". Estas mesmas figuras estão representadas de uma forma excessivamente estereotipada o que faz com o que o filme perca ainda mais credibilidade. É dificil que um filme que caia na fantasia como este consiga sustentar o seu argumento. Inverossimilhança e anacronismos só passam impunes em filmes extremamente bem estruturados como é o caso de Inglorious Basterds, brilhante filme de Tarantino. Neste caso, nem pondo o filme no género Allen a coisa se safa, porque o nome do Woody Allen não se fez de filmes como os da última década e creio que caiu num facilitismo desnecessário. O autor não parecia estar inspirado aquando da escrita do argumento e realização deste filme, o que transparece nas personagens, o que transparece nos actores. Aquele núcleo da noiva de Gil é absolutamente plano, sem que uma personagem com algum relevo surja para salvar o filme. Tenho de admitir que gostei mais de "You will meet a tall dark stranger". Era menos pretencioso, logo menos decepcionante...

Nota 12

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Da Sorte...



Outro dia falava aqui de sorte, de injustiças, de verdades. Eu sei que tenho sorte, muita sorte. Mas olho à minha volta e vejo pessoas que acho que têm ainda mais como outras olharão para mim nesse sentido. Eu acredito que quem quer que seja (Deus, Destino, Fado, chamem-lhe o que quiserem) que põe alguma ordem nisto tudo não anda a dormir. E acredito, preciso de acreditar, que o mundo nos traz o que lhe oferecemos mais cedo ou mais tarde. Sim eu tenho sorte dizem vocês. Tenho muita sorte. Tenho um bom emprego, carro e casa. Um sem fim de vestidos bonitos no armário e algumas viagens de sonho no passaporte. Tenho sorte? Tenho uma sorte dos diabos. Mas a vida não se mede por carros, vestidos e viagens. Não se mede por idas a restaurantes da moda nem por usar um salário mínimo nos pés. Pobre, muito pobre, é quem pensa que sorte é isso. Sorte, a minha grande sorte é poder olhar um pôr do sol destes num feriado de 5 de Outubro nos braços de quem melhor me quer, ouvir as risadas da minha família como pano de fundo e sentir-me cheia, amparada. Porque todos, todos (convençam-se disso) temos os nossos problemas. Todos damos as nossas turras, uns mais, outros menos. Mas o que esta foto representa é algo que hei de levar comigo para sempre. É finalmente, o sítio onde eu me sinto em casa. E quem tem uma "casa", e nestas coisas o inglês não falha por isso aqui vai: "If you have a place that you can call home" aí sim podemos começar a falar de sorte. Tudo o resto vem por acréscimo, num misto de empenho com astros bem alinhados. A quem me entende... 

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Note to Self.


Não sei se alguma vez repararam na frase que está no fim deste blog a letras vermelhas. Diz "Não existe a verdade, apenas o verdadeiro". Não sei se alguém já a escreveu ou publicou, muito provavelmente sim, mas em 2006 quando criei o blog, achei que tinha autoridade moral para pôr um copyright numa frase que surgiu numa das muitas travessias da A3.

É muito fácil entender isto, basta perder uns segundos. O velho exemplo do livro. Um livro não é do autor ("morte do autor" e isso é do senhor Barthes e não meu) e sim de quem o lê. Pois cada um ao ler um livro, um história, imagina dela o que quiser. E a forma como essa história é interpretada muda em função das vivências de cada pessoa, da sua personalidade, das suas ambições, dos seu sonhos. E o mesmo livro pode se tornar num livro diferente para a mesma pessoa dependendo da idade com que o lê, do local que o faz, em que contexto, com que estado de espirito. Simples não é? Não existe a verdade, uma Verdade. Para isso teríamos de ser todos clones programados da mesma forma vivendo num mundo plano e sem falhas de sistema. Assim existe o que é verdadeiro para cada um, verdadeiro no seu parecer, no seu querer, no seu existir. E apesar deste conceito ser extremamente interessante e que irei ensinar aos meus filhos, há outro ainda que terá de o anteceder.

A vida não é justa. E as diferenças do que é verdadeiro para mim ou para os outros fazem essa injustiça se acentuar mais. O meu pai costumava-me dizer quando chegava a casa com dezoitos que não havia motivo para estar contente pois a escala era até 20. Que não tinha feito mais do que a minha obrigação. A vida não é justa, não nos adianta tentar ser os melhores, os mais correctos, passar noites de insónia preocupados com problemas que não são nossos. A vida não é justa. Perdemos pessoas boas que amamos enquanto somos obrigados a tolerar uma vida outras que não nos dizem nada. Vemos castelos de granito que amigos contruiram caírem aos nossos pés sem que nada possamos fazer para ajudar. Vemos palavras levadas ao vento e esforços de uma vida se transformarem em cinza, pó e nada como a Florbela Espanca gostava tanto de escrever. E um dia percebemos que as coisas não acontecem apenas aos outros e, sem aviso prévio, tiram-nos o chão sem que haja um colchão de molas para amparar a queda.

Em certas alturas da minha vida dou por mim a pensar na lucky bastard que sou. Porque sou. E penso: vou escrever isto tudo no papel, todos os motivos porque estou grata para que me possa lembrar em momentos menos bons. Apenas do azedo se conhece o doce... E por isso aqui fica o lembrete para quando andar excessivamente nas nuvens (onde ainda não consegui residência fixa) e não cair tão desamparadamente:

"A vida não é justa Raquel. Deverias saber isso melhor do que ninguém. Mas por muito que caias deves-te levantar e levantar sempre. Nunca uses este argumento como justificação para o que te corre menos bem. Porque a tua verdade, a verdade que vives genuinamente pode não ser a que outros vêm.  Mas enquanto nela acreditares nada estará perdido. Tu também não és justa e outros sentirão que não lhes fazes justiça.  Por vezes tão calculista, por vezes tão ingénua, cresce Raquel, cresce... Porque a justiça também é feita por ti. Umas vezes tens de lutar, outras terás de ceder. Certas espécies de tubarões comem os ovos de outras crias ainda dentro do utero, numa selecção muito pouco natural... Porque a vida não é justa e em todas as cadeias alimentares haverá sempre uma camada acima, sempre uma camada abaixo. Mas faz parte da tua natureza não ser apenas mais um. Agora levanta-te e vai e não te atrevas a esquecer novamente: não existe a verdade, apenas o verdadeiro."

sábado, 6 de agosto de 2011

Brothers & Sisters de todos nós...


Depois de Gilmore Girls, outra da minhas séries familiares de culto é cancelada. A notícia trouxe-me um amargo de boca mas recebi-a com a calma de saber que temos de deixar alguém partir. Ao longo de 5 temporadas os actores ficam cansados, a histórias gastas e por muito que ame a família Walker nada dura para sempre com o mesmo brilhantismo. E assim termina a série que provou que grandes nomes do cinema podem se tornar grandes nomes da televisão: Avé Sally Field e a sua Nora, uma das personagens mais brilhantes e devidamente galardoadas no mundo televisivo. Com ela tantos outros, Calista Flockhart, Balthazar Getty, o saudoso Rob Lowe...

Comecei a ver esta série por acaso num dia em que servi de baby-sitter da minha sobrinha mais velha. Apanhei apenas os 10 minutos finais de uma season Finale em que a filha de Tommy recém nascida corre riscos de vida. Creio que 1 minuto depois troquei de canal, pois tinha percebido logo que esta era uma série que ia adorar e não queria estragar com spoilers.

Devorei as primeiras temporadas e esperei lentamente a conta gotas que novos episódios saíssem. Tornou-se um culto. Não têm um tema mórbido como Sete Palmos de Terra mas são uma família igualmente acutilante. Não é uma série de comédia como Uma Família Moderna e no entanto arranca-nos gargalhadas com o mais refinado humor. Lágrimas? Muitas. E aí entra o que de principal e tão sedutor tem Brothers & Sisters. Esta série soa a qualquer pessoa como uma extensão da sua própria família. Todo e qualquer espectador já se reveu numa situação em Brothers & Sisters e se rendeu à forma politicamente incorrrecta como resolvem os seus problemas, ou não... Porque nenhuma família é perfeita e esta também não o era.

Quem não desejou estar num dos longos e problemáticos jantares que regados a vinho californiano são a imagem de marca da família. Quem não desejou puxar as orelhas a Justin ou ao Tommy quando eles andavam fora do trilho. Quem não se sentiu divido entre simpatia ou puro desdém pela personagem de Holly. Que mulher não sentiu borboletas na barriga ao assistir ao desenrolar do romance da Kitty com o Senador ou da Sarah com o seu amante francês. Quem não se enterneceu pelo amor entre o Kevin e o Scotty. Quem é que não sentiu por vezes um soco no estômago com situações familiares tão complexas e que nos faziam tanto lembrar de outras a que assistimos na primeira fila, desta toma sem ser através do ecrã da televisão. Eu sim...

Esta série terminou mas deixou em todos nós a que assistiam a sensação de que levámos um bocadinho deles porque no fundo eles eram irmãos e irmãs de todos nós. E porque o bom da vida é para guardar com saudade ainda podemos rever as últimas duas temporadas na Fox Life. Porque recordar... Vocês sabem.... Recordar é viver.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Dos filmes de terror, do poder da ficção e de como às vezes pareço uma menina de 10 anos...



Hoje fui ver um filme de terror ao cinema. Já não o fazia há muito tempo mas pareceu-me um bom programa de meninas em plena silly season. O filme de seu nome Insidious era mau, pior. Era péssimo... E mesmo dentro do ridiculo de figuras com mãos feitas de lâminas (Tim Burton dear, nada bate o teu genial Edward) aquilo meteu-me imenso medo.

Temos medo do que não conhecemos é sabido... E o filme explorava de forma sofrivel o mundo dos que não fizeram a "passagem" e que ficam aqui para nos atormentar em sonhos e não só. A famosa temática dos exorcismos que sempre me arrepiou de morte (lagarto, lagarto, lagarto) e aquele pormenor das presenças, encostos ou o raio que os parta.... O final do filme era aberto e mesmo tendo sido tão mau saí de lá a tremer.

A ficçāo, ai a ficção, quantas vezes não falei do poder dela nas minha vida. Lembro-me bem de um dia escrever algo como "estou a chorar baba e ranho com um romance que nem sequer é bom, há coisas na vida mais fortes do que nós e a ficção é uma delas". É mais forte do que eu, incomoda-me, entranha-se em mim, não tenho como negá-lo por mais pateta que pareça.

No fim do filme já estava eu a ouvir barulhos estranhos, a sentir toques nos ombros, a ver sombras sinistras quando começam elas com a típica conversa que qualquer mulher tem depois de um filme destes: contar as suas próprias histórias do sobrenatural... E mesmo com os meus pedidos de "ahhhh parem não quero ouvir" de nada adiantou porque o entusiasmo alheio era muito e eu com as māos no volante não conseguia tapar os ouvidos... A curiosidade, que é mesmo mórbida lá me levou a ouvir com atenção as histórias e até fazer uma outra pergunta.

Cheguei a casa petrificada. E se me acontecesse o mesmo já esta noite? E depois tentei fazer o exercício que fazia quando era pequenina e via os filmes do Chucky, em que olhava desconfiada para as dezenas de bonecos espalhados pelo quarto e cuidadosamente ia dar um beijo a cada um e deitá-los para dormir na esperança que tivessem pena de mim por eu até os tratar bem. E quando no escuro imaginava que umas perninhas de borracha se encaminhavam na minha direcção tinha o discernimento de me dizer: "Mas porquê que isto te haveria de acontecer hoje? Só porque viste o filme? Isso não faz sentido nenhum." E tentando acreditar na lógica lá adormecia. Como hoje espero adormecer sem pesadelos (porque as histórias reais mesmo com muitos salpicos de imaginação são bem mais assustadoras do que filmes e com estas coisas sou mesmo mariquinhas) e ignorando barulhos de portas a bater a meia da noite...

E no meio de tudo isto acabei por me lembrar de uma frase que Hitchcock dizia com frequência quando alguns dos seus actores tinha dúvidas em relação às suas personagens ou se levava demasiado a sério nas suas interpretações. Dizia "isto é só um filme". E um por um todos à sua volta voltavam ao trabalho na crença que ele tinha razão. Hitchcock porém nunca acreditou nele próprio e por alguma coisa queria que na sua lápide dissesse: Isto é o que acontece aos meninos que se portam mal...

Eu até sou boa menina está bem? E isto foi só um filme...

sábado, 30 de julho de 2011

O aniversário do fim de uma era...


Esta noite acordei de rompante às 6 da manhã. Não é comum que aconteça ao fim de semana. Acontece por vezes quando alguma questão de trabalho me assalta a mente e rapidamente volto a dormir. Hoje é Sábado e só saí da cama às 11 horas mas às 6 da manhã despertei e pensei.... Faz anos hoje, tenho quase a certeza que foi nesta data.... E com a promessa interior de o verificar quando acordasse voltei a dormir. 

Só me recordei agora e confirmei que tinha razão. Sim, hoje faz 4 anos que o telejornal abriu de uma forma triste, duplamente triste. Michelangelo Antonioni e Ingmar Bergman tinham morrido. No mesmo dia o mundo ficou mais pobre de uma forma trágica. Antonioni tinha 94 anos e Bergman tinha 89. Não eram novos, é certo, mas que acontecimento mais macabro este. Duas lendas vivas do cinema europeu. Dois mestres do cinema de autor. Dois realizadores que se admiravam mutuamente. Dois cineastas por quem eu tinha devoção. Morreram dia 30 de Julho de 2007. 

Falta-me ler mais sobre Antonioni mas já devorei várias vezes a auto-biografia de Ingmar Bergman. Um génio. Um louco. Estudei ambos e mergulhei em alguns dos seus filmes de corpo e alma. Filmes esses labirínticos, prodigiosos em cenas longas, com especial enfoque no subconsciente e tão assertivos e ao mesmo tempo indefinidos nos seus diálogos. 

Não acredito de facto em coincidências e caso exista um after life estou convencida que os dois estejam até agora em amena cavaqueira a trocar ideias sobre takes num inglês macarrónico. 


quarta-feira, 27 de julho de 2011

Sobre sombras, contrastes e novamente cinema.


Tem me apetecido escrever sobre cinema. Escrever até me fartar se é que isso é possivel. Tenho fome de bons filmes, de análises críticas, de debates enfáticos. E esta vontade não me vem apenas do rígido mestrado em estudos cinematográficos em Inglaterra. Como já aqui falei desde cedo no meu curso de comunicação o cinema assumiu uma importância fulcral e sempre me servi dele como auxiliar de tantas e tantas teorias da comunicação. Dá-me gozo, é isso. Dá-me muito gozo. Análises semióticas chatas que não interessam ao Menino Jesus mas que a mim fazem vibrar. E daí mais uma vez aqui estou com o cinema, "o meu cinema".

Quando disse ao meu orientador que queria fazer uma tese sobre "O Sonho e o Cinema" ele disse-me que a minha escolha era atrevida. A minha ignorância poder-se-ia pagar cara. Há pouca bibliografia sobre o tema, caminhava sobre terrenos escorregadios e não podia contornar a abordagem à psicanálise. Assim foi e resultado melhor seria impossivel. O meu case-study foi o filme Mulholland Drive de Lynch, filme esse que nomeio como um dos melhores que tive o prazer de assistir (dezenas de vezes). Talvez seja interessante que partilhe algumas observações sobre a complexa obra aqui, uma vez que o número de pessoas que já me pediu uma desconstrução do filme seja considerável. Para já e tal como ontem pegando numa citação constituinte da minha tese aqui fica este texto que acho absolutamente fabuloso.

John Alton, director de fotografia de mais de cem filmes falou muitas vezes do poder da luz e da falta dela. Das sombras e dos contrastes e de como a iluminação é sem dúvida o mais importante na fotografia de um filme. Amante que sou desta vertente do cinema aqui fica este descontraído texto que se lê num arder de um fósforo e que mais uma vez me faz pensar não há nada mais mágico que a ficção, nomeadamente em cinema.


“Para se aperceber do poder da luz e do que ela pode fazer à mente de uma audiência, visualize esta pequena cena: O quarto está escuro. Um forte raio de luz aparece no hall sobre a porta. Ouve-se o som de passos. A sombra de dois pés divide o raio de luz. Segue-se um breve silêncio. Existe suspense no ar. O que é? O que vai acontecer? Ele vai tocar à campainha? Ou apenas inserir a chave e tentar entrar? Aparece outra sombra mais pesada que bloqueia a luz por completo. Ouve-se um indistinto som de assobio e a sombra vai-se embora. Vemos com a luz fraca, um papel a ser empurrado sobre a carpete. Ouvem-se novamente os passos… Desta vez a irem-se embora. Aparece uma vez mais uma luz que ilumina a nota de papel no chão. Lemo-la à medida que os passos se afastam: São dez horas. Por favor apague o seu rádio. O vizinho.”

Painting with Light (1949)


terça-feira, 26 de julho de 2011

Máscaras, Jung, Bergman, Godard e de como eu adoro cinema acima de tudo na vida...


Eu compreendo, tudo bem: o desesperado sonho do ser, não parecer, mas sim ser. Em todos os momentos, alerta à distância entre o que tu és com outros e o que tu és para ti. A vertigem e a constante fome de ser exposta, ser vista através de, talvez até ser apagada. Em cada gesto uma mentira, em cada sorriso uma máscara. Suicídio? Não, muito vulgar. Mas podes-te recusar a mexer, recusar a falar de modo a que não precises de mentir. Podes-te calar em ti própria. Assim não precisas de interpretar papéis ou fazer gestos errados. Ou pensas tu. Mas a realidade é diabólica. O teu esconderijo não é impermeável. A vida engana-te e tu és forçada a reagir. Ninguém te pergunta se é verdadeiro ou falso, se estás a ser autêntica ou apenas uma cópia. Coisas como estas só têm importância nos palcos, e até mesmo lá raramente têm. Eu compreendo porque não falas, porque não te mexes, porque estás apática. Compreendo. E admiro. Deves desempenhar este papel até ao fim até que perca o interesse para ti. Depois podes abandoná-lo, assim como abandonaste todos os outros papéis, um por um.
Margaretha Krook em Persona de Ingmar Bergman (1966)


Jean Luc Godard escreveu na revista Cahiers du Cinema que “se para Bergman estar só é fazer perguntas, para Bergman filmar é encontrar as respostas”. O texto acima transcrito é um excerto de Persona, filme escrito e realizado por Ingmar Bergman e uma chave mestra na sua obra individual. Aparentemente um monólogo, este é um diálogo entre a psiquiatra interpretada por Margaretha Krook e a sua doente, a personagem Elisabeth Vogler interpretada por Liv Ullmann. Enquanto que as palavras faladas pertencem unicamente à primeira, a segunda responde com olhares e silêncios, olhares que falam, silêncios que gritam. O filme trata o período de exclusão de Vogler, uma actriz constantemente a representar. Sendo incapaz de fazer cair as várias máscaras que carrega, deixa que a enfermeira que a acompanha, personagem interpretada por Bibi Andersson, sugue a sua própria personalidade apropriando-se da sua vida. A actriz, que mais nada sabe fazer do que actuar, toma assim a identidade da ingénua enfermeira num debate interior pela sua genuinidade.

The cinema is truth 24 frames-per-second. -Jean-Luc Godard


sexta-feira, 22 de julho de 2011

Quero um Ocelot!


Haverá algo mais perfeito do que este animal? Um gato con traços de tigre. Um wildcat. Mas não serão todos os gatos wild?

Quem me conhece sabe a afinidade que tenho com os gatos. Tive 3 na minha vida, cada um com uma história muito própria e que contarei aqui brevemente. Vi o Cats a primeira vez com 15 anos e fiquei absolutamente fascinada com o texto, com a forma como se esgueiravam, apresentavam. Depois disso exigi à minha mãe um gato. Identificava-me com eles, com a sua personalidade. Entendemo-nos bem eu e os felinos. Damos o espaço que precisamos um ao outro e depois temos momentos de endless ternura e ronronar. Somos astutos, calculistas, misteriosos. Somos espiritos livres que gostam de mimo e bem estar. No entanto nunca se sabe o que pode contar de nós ao mesmo tempo que sabe que se pode contar tudo até o inimaginável.

Já disse que gostava de felinos? Gostava de ter um Ocelot, o meu tigre de estimação, qual Jasmine do Alladin. Se calhar já o tenho, só preciso de pegar nele e dizer: Baby, this is home!

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Em Guimarães...



eu nunca acordo com barulho na rua ou ouço carros a passar.

eu não preciso de usar relógio porque os sinos de várias igrejas marcam o compasso da vida.

eu posso assistir a sessões de cinema ao ar livre no centro histórico mais bonito que conheço.

eu sou sempre bem atendida e as pessoas oferecem-se sempre um sorriso quando passo.

eu posso comprar carteiras Chloé e Celine e sapatos YSL e Balenciaga em lojas de comércio de rua.

eu bebo um chá de ervas e como o melhor Jesuíta do mundo por 2€.

eu vibro com o futebol que une uma cidade, grito meio palavrão por minuto e no fim ainda me emociono no estádio.

eu posso visitar o meu Palácio, o meu Castelo, as minhas Muralhas e ler com orgulho a placa que diz "Aqui nasceu Portugal".

eu posso viver numa casa onde animais correm ao ar livre, morangos nascem às centenas e uma floresta de girassóis avista-se da varanda do quarto.

eu posso dar passeios intermináveis na Pousada de Santa Marinha, outrora mosteiro, onde os jardins mais misteriosos do mundo se levantam e onde os meus irmãos se casaram.

eu tenho as vistas mais bonitas do pôr do sol sobre a cidade a partir da minha sala e no entanto consigo estar no centro em 5 minutos.

eu dou longos passeios pelo parque da cidade, pelas ruas estreitas com centenas de anos, pela história de Portugal.

eu posso passar o fim de semana todo de havaianas e bikini, vestir um leve vestido para ir comprar o pão mais estaladiço sem que ninguém olhe para mim de lado mesmo não havendo mar por perto.

eu estou perto pertinho de Espanha, perto pertinho do Porto e mais perto pertinho ainda das pessoas que moram no meu coração.

eu converti-me ao espirito de ser vimaranense, de adorar o D. Afonso.

(Porque nem sempre foi assim e Guimarães conquistou-me. Porque nasci em Guimarães há 27 anos e só agora entendo que nasci no sitio certo. E havendo tanto mas tanto mais para dizer sobre as qualidades da minha cidade apenas me ocorre que:)

"Em Guimarães.... eu sou feliz."

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Para o PP...


Tive vários blogues antes deste. Secretos, sem assinar o meu nome ou mostrar a minha cara. Blogues de duração tão curta quanto o tamanho da minha auto censura. Em 2006 tive uma cadeira chamada Produção de Conteúdos para os Media. Era uma cadeira de 4º ano da especialização em Jornalismo e muitos colegas não entendiam porque é que a cadeira que valia mais unidades de todo o curso era dedicada ao cinema. Sem deixar de os compreender, eu adorava... Era a minha praia... Estudos cinematográficos, argumentismo, fotografia e montagem, análises semióticas. Era uma cadeira anual com 6 horas de aulas semanais e o professor que muito prezo tinha fama de ser duro. Aliás... Era duro. Facilmente caí nas suas graças. Era dedicada àquela cadeira, interessava-me o tema, ali sentia que podia ser maior. Tanto, que já tinha encaminhado a minha candidatura ao mestrado em cinema em duas universidades inglesas.

A minha turma não me achava tanta graça assim. Aluna que nunca foi às aulas, de repente caía ali de pára-quedas pronta para saborear de um trago só matérias que eles não queriam, nem tinham de ter a mesma sensibilidade que eu demonstrava. Aos poucos julgo que perceberam que eu era mesmo assim, que aquela paixão pelo cinema, estética e semiótica era genuína, que não era uma lambe botas, pelo contrário, era das poucas que ousava corrigir o professor. Depois da implicância inicial começaram a pedir-me ajuda para os trabalhos da mesmo forma como eu lhes pedia os apontamentos de outras cadeiras que não tinha gosto em frequentar. E com extremo prazer o fazia. Sugeria-lhes temas, filmes, bibliografias, frases de abertura para os trabalhos, trechos a mostrar na apresentação.

Um dia em jeito de brincadeira uma colega, que era óptima aluna, disse-me que eu deveria criar um blog para poder lá escrever as mesmas coisas que lhes dizia. A sugestão que era elogiosa deixou-me a pensar e apesar de nunca ter transformado este blog naquilo que ele merecia, podem ler para trás muitos e muitos textos sobre cinema. Textos dos quais me orgulho. E assim fica a história pura e dura do meu inicio a sério num blog...

Mas em 2006 eu desconhecia por completo que existiam seguidores... Eu não lia outros blogues logo não esperava que lessem o meu. Apenas o conheciam os meus amigos, principalmente por curiosidade de ler a critica que escrevia ao filme que tinhamos visto no dia anterior.

No decorrer dos anos desta residência surgiu-me um leitor que sempre assinou como PP. Não sei quem é mas julgo que me conhece ou conheceu. A forma intima como me escreve sugere isso e quando lancei o repto para o conhecer respondeu-me assim: "Só hoje vi a tua msg. E talvez até me conheças, mas isso não interessa. Porque sei que poder estar na tua mente nem que seja um minuto por ano, é ter também uma residência nas nuvens, só não é fixa. P.S. A lua hoje está linda." ou assim "Eu sei que deixando comentários aqui e ali estou sujeito a que todos vejam o que escrevo. Mas de outra maneira não teria onde me inspirar. Continuas linda e com bom gosto,  fico feliz se souber que tudo te corre bem por ai na ilha. Mas lembra-te que o Porto terá sempre saudades de princesas como tu." deixando-me ainda mais curiosa.
A última vez que me escreveu foi em 2009 e não faço ideia se ainda este visita este espaço. Se sim, o que duvido, aqui fica:

Caro PP, no dia 10 de Fevereiro de 2008 escreveste-me assim: "não sei porquê, mas porque sim. eu minto e desminto num olhar, mesmo que não olhes pra mim, eu minto e volto a mentir. porquê? -não digo, ou porque sei que por mais longe que eu esteja do teu olhar, eu estarei a ver, e volto a mentir. tu és especial não tens de perguntar porquê, mas a resposta, é porque sim. porque vives e guardas o melhor pra ti e não queres deixar o mundo sem saber o sabor do que guardaste aqui."
E 40 meses depois queria te dizer que nos últimos dias me lembrei muito destas palavras e que sim... Não vou deixar o mundo ser saber o sabor do que fui guardando aqui e ali. Obrigada por estas palavras tão especiais que não serão esquecidas. Obrigada essecialmente por me teres alertado para a grandeza das pequenas coisas e vai aparecendo que esta residência sente falta de um anónimo como tu.

A minha marca (até que o mar a levasse) na praia da minha vida. 

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Sussurros do sexo + forte: Amores em linha

Moram em países diferentes, nem falam a mesma língua. Numa rede social online descobrem que são amigos de amigos e a beleza dela faz-vos dar o primeiro passo. Afinal é tão mais fácil quando se está a uma distância de um clique. Não precisam de ter o cabelo penteado nem a camisa engomada. Trocam-se uns emails num inglês enferrujado, o essencial é sempre entendido. Afinal a língua da sedução é universal. Enviam-se uns vídeos com umas músicas cuja letra é suposto falar por si. Quando dão conta já enviam mensagens de boa noite e a conta de telefone aumenta a olhos vistos. Já a viram na webcam, trocaram fotografias dos cães e já conhecem a sua rotina. Passam por dia um número de horas consideráveis em frente ao monitor do computador e pela primeira vez não é num qualquer jogo online. É oficial: têm uma relação no ciberespaço. É então que chegam àquela fase decisiva. As fantasias para se encontrarem num país neutro e passarem um romântico fim-de-semana à beira-mar aumentam. Fazem planos de passarem a próxima passagem de ano juntos, trocarem prendas no natal e fazerem aquela viagem ao destino paradisíaco que os dois sempre sonharam. De repente já marcaram as férias para a mesma altura que ela, e tudo parece tão perto, no entanto tão longe. Vão dar esse passo? Conhecer alguém cuja história que partilham é meramente digital?
Para esta pergunta podem haver várias soluções. Se o entendimento for assim tão bom, porquê estragar com um encontro embaraçoso em que os vossos assuntos de conversa parecem de repente se terem reduzido ao tempo. E se ela não gostar da forma como vocês caminham, se o som da vossa gargalhada a incomodar ou até nem têm gostos gastronómicos semelhantes. De repente vêm nela uma olhar de reprovação, sentem-na desconfortável e com a constante pergunta na cabeça “O que é que eu faço aqui num país estranho com um homem estranho”. E se o mesmo vos acontecer a vocês. Qual será pior? A desilusão ou a rejeição ou a simples sensação incómoda que têm quando acordam de um sonho bom e descobrem que afinal nunca aconteceu….
Ou… Porque não podemos ser pessimistas, podem descobrir que ao vivo a vossa química sobe em flecha. Que estão oficialmente apaixonados apesar de só ser a primeira vez que se estão a ver, que afinal sentiram tantas saudades daquela pessoa à vossa frente que é tudo menos uma estranha.
Conheço pessoas a quem lhes aconteceu a primeira alternativa, outras a quem aconteceu a segunda. Alguns casaram, outros continuam juntos há anos, outros tiveram simplesmente uma noite louca para relembrar. Poucos são aqueles que tiveram de facto uma má experiência. Afinal o desconhecido é sempre atractivo.
Por muitas diferenças que possam encontrar neste exemplo, quase todos já tiveram uma experiência parecida. Mais ou menos distância, mais ou menos orçamento, mais ou menos paixão na vossa relação cibernética. A internet é cada vez mais um sítio apetecível para conhecer pessoas novas e se pensarem bem é tentador que a informação esteja ali tão perto e a selecção, que não é assim tão natural, posso ser feita de raiz. Um conselho. Arrisquem. Vivemos numa aldeia global, conheçam as vossas vizinhas sexy.

(Os "sussuros" que vão lendo aqui foram publicados entre 2008 e 2009 na revista masculina Bling HIM. Era uma crónica que escrevia com o intuito de "ajudar" os homens a entender melhor as mulheres. Apesar de baseada na minha experiência e conhecimentos esta crónica era assinada com um pseudónimo e escrita por uma "personagem" que criei.)

quinta-feira, 16 de junho de 2011

The importance of being alone...


No Sábado estava um dia de sol no Estoril. Falei com familia e amigos que me informaram que em casa estava mau para o bronze. Era só isto que precisava de ouvir para decidida me encaminhar para a praia. Levantei-me tarde e ainda assim só dormi umas miseras 4 horas. Desci à sala da casa onde estava e encontravam-se já os meus convivas em modo pequeno almoço inglês. Insistiram que ficasse por ali mas é sabido que não consigo ficar muito tempo no mesmo sitio... E então entrei no modo que mais gosto: solidão, a minha solidão, num sitio que não meu.
Adoro o Estoril, recordo as dezenas de vezes que lá fui mas a verdade é que ficava sempre no mesmo hotel, mais tarde na mesma casa e em outras ocasiões deslocava-me de carro. Ora eu sabia que a praia estava por perto mas não tão perto. Caminhei perdida pelas ruas, sem vontade nenhuma de pedir indicações. Haverá uma sensação de liberdade maior do que esta?
Depois de alguns tropeções e caminhos menos próprios cheguei à marginal. Virei sem pressa para a minha direita desconhecendo de todo onde estava. Always turn right. A unica coisa que lamentei foi não ter comigo a minha música, mas dado o estado da minha cabeça de 4 horas mal dormidas talvez fosse melhor assim. E nesse passo lento e aventureiro cheguei a esta praia que não lembro o nome. Escondida por casas e pedras, esta pequena baía pareceu-me o paraíso. Estendi a minha toalha e sem olhar duas vezes fui arriscar os meus dentinhos nas rochas, caminhando sem chinelos, mergulhando e voltando a subir entre escorregões. Sabia que nunca na vida me deixariam fazer aquilo (pais/ amigos/ namorado/ irmãos). Senti-me como a miuda que rouba a bolacha e a come atrás do sofá com os pais lá sentados a ver tv. Senti-me livre, senti-me feliz.
E já mencionei no outro blog que este fim de semana foi muito bom, que as pessoas que me acompanharam foram fantásticas e que me diverti imenso. Mas a Raquel só é verdadeiramente ali. Consigo própria a trepar rochedos escorregadios. Sem ninguém a observar a não ser a sua própria consciência. E sem cinismos o digo porque quem me conhece e quem me gosta o sabe: não há melhor companhia para mim do que eu própria.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Sussuros do sexo + forte: As Bandidas.


A minha cidade está cheia de bandidos. Uma epidemia, como nunca aconteceu e que ninguém parece conseguir controlar. Mas estes bandidos não roubam carros, quadros ou jóias. Eles andam aí, cruelmente a roubar corações. Vêm com falinhas mansas, dizem o que uma mulher quer ouvir, fazem-na sentir especial e única e depois como se nada fosse, desaparecem. Ora que esta nova classe de ladrões, não me assusta nem um bocadinho. É que apesar de provocarem o terror entre o seio da comunidade das meninas ditas princesas que inocentes ainda acreditam em príncipes, eles desconhecem a existência de mulheres como eu: as bandidas. E eu, apesar de ser fã número um da bandidagem, vou-vos ajudar a reconhecer quando uma mulher vos está a tentar roubar o coração.
Uma bandida tende a ganhar o alvo a atingir pela confusão que lhe provoca, tanto que após lhe anestesiar os sentidos, ele se recusa a acreditar que nada mais do que uma princesa tem ao seu lado. Ela é segura de si e senhora do seu nariz, mas nos momentos certos mostra-se fragilizada para que vocês acreditem que a podem consolar e apoiar, que são importantes na sua vida. Tanto vos faz sentir inferiores a ela de forma quase constante, como solta um elogio que vos parece sincero e vos deixa encantados por tempo indeterminado. A disposição dela funciona como o vento, e vocês, ignorando se naquele dia está para norte ou para sul, tratam-na sempre com muita cautela, como de uma casquinha de ovo se tratasse. Por fim, e porque as bandidas sabem aproveitar o melhor de si, elas dão o seu corpo a conta-gotas, combinando esta espera com momentos intensos de total entrega, seguidos de novo recuo, o que vos deixa loucos de desejo. As bandidas mitificam-se, e vocês comuns mortais, nada mais têm a fazer do que adorá-las.
Chegando a esta fase, cada homem já se questiona o que fez de certo ou errado para justificar cada acto dela. Sente-se tonto e ansioso. Já se afastou dos amigos e tem embaraço em contar aos mais próximos o que lhe vai na alma. É oficial, foram seduzidos. Ou melhor, lamento dizer-vos: foram manipulados, enganados, logrados, iludidos.
Querem saber agora a parte boa da história? Todo este esforço por parte da mulher só se aplica quando ela realmente não está interessada num homem, quando não imagina um futuro com ele, quando só precisa de alguém que aumente um bocadinho o seu ego ou venha apimentar a sua vida sexual. E assim sendo, para bandida, bandido e meio e aconselho-vos a aproveitarem ao máximo este jogo que se pode tornar muito excitante para ambos. Se se apaixonarem, então desistam, fujam a sete pés, porque não há nada que humilhe mais um homem perante uma mulher do que a sua fraqueza.
Por fim a pergunta lógica: Então e quando as mulheres gostam de um homem? Infelizmente meus caros, tenho de vos confessar a verdade: até as criaturas que vos falei em cima se apaixonam e aí… São tão tontas e ansiosas como vocês conseguem ser. Palavra de Bandida!


(Crónica escrita para a terceira edição da revista Bling HIM)

sábado, 14 de maio de 2011

O meu pops.


Hoje foi a última vez que te conduzi. A última depois de nove longos anos. Foste o meu primeiro carro e contigo e em ti vivi mais do que com todas as pessoas juntas que conheço. Juntos fomos ao deserto do Sahara, fizemos quilometros infindáveis só os dois... Daquelas viagens em que te carregava no acelerador com o pé esquerdo por ter o direito cansado. Dentro de ti fiz um pouco de tudo mas principalmente cantei, cantei muito. Chorei também é certo mas hoje despedi-me do meu companheiro de sorriso no rosto. Não nostálgico, apenas de adeus que já se faz tarde. Mas não podia deixar de dedicar umas linhas, no fundo não tens culpa do choque contra o camião a alta velocidade, eu também não. Não tens culpa que depois desse acidente tenhas ficado tosco, a proferir gemidos estranhos quando te acelerava um bocadinho mais, irremediavelmente estragado. Não tens culpa dos assaltos a que foste sujeito, das marcas de cerveja em todo o lado, do meus sapatos espalhados nos bancos...
No fundo só te quero o bem e por isso do meu mais intimo ser te desejo:  espero que o teu próximo dono te trate melhor do que eu tratei.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Twelve

"No one needs anything here. It's all about want."

Twelve - um filme aparentemente fraco sobre o Upper East Side e futilidades de adolescentes ricos... Sendo o protagonista, um actor de Gossip Girl, a comparação incial é inevitavel mas Twelve pouco ou nada tem a ver com a série. Existem meninas futéis que se preocupam com a fama entre o meio escolar, existem virgens de 17 anos desejosos de passarem uma noite com a prom queen, mas tudo isto serve para complementar a estrutura de um filme que em muito me agradou. Uma boa surpresa, uma vez que as criticas ao filme são fraquissimas e deixam-se adivinhar por quem não consiga ver para lá daquilo que o filme aparentemente nos diz.  Com um quê de Breat Easton Ellis, mais nomeadamente Menos que Zero e Regras de Atracção na aproximação da história e desenrolar do argumento e a fazer lembrar Fight Club em alguns elementos da fotografia e da montagem... É frio, duro e implacável. Mostra a realidade que muitos se recusam a ver e apesar de alguns acusarem Joel Schumacher de violência gratuita, eu acho que a maior violência está nas palavras, na devastação de uma sociedade adolescente por uma droga nova, twelve, e as suas consequências nefastas. Excelentes interpretações, com narração certeira e arrepiante de Kiefer Sutherland e uma pequena mas marcante participação de 50 cent. Por fim há que falar de Chace Crawford a mostrar que é muito mais que um cara bonita da nova vaga da televisão.
Not just another teen movie. Recomendo!

domingo, 17 de abril de 2011

Se te dessem essa oportunidade, com quem gostarias de te sentar à mesa de jantar?


Há dez minutos atrás, estava deitada numa esteira de madeira no meu bikini vermelho a bronzear-me enquanto lia o último de Paul Auster: Sunset Park. Em duas horas li cerca de 100 páginas, mas ao longo dessas duas horas o processo foi-se tornando tão penoso que ao contrário de há dez minutos atrás encontro-me deitada na rede brasileira, estrategicamente posicionada à sombra, com o computador nas pernas. Tenho uma verdadeira obsessão por ter a pele bronzeada, já lhe chamaram tanorexia, mas sou absolutamente incapaz de conseguir ficar mais de quize minutos ao sol sem fazer nada. Entre ouvir música, arrancar bocados de relva, observar o cão ou contar os milhares de pedaços de algodão que pairam no ar como nesta tarde, nada me ajuda mais na minha tarefa de bronzear o corpo do que a leitura. Por isso vestir um bikini para mim equivale a agarrar num livro ou numa revista que me prenda algum tempo na toalha. E assim já li vários livros de Paul Auster, alguns num dia apenas, naqueles dias fabulosos de praia no Algarve em que um livro demasiado bom não me permite ir a banhos sequer.

Sei que este vicio vem desde sempre porque me lembro claramente que no primeiro Verão em que já andava na escola, com seis anos, a minha mãe me oferecia um pequeno livro infantil por dia. Era a forma de me arrastar para a praia de manhã quando queria ficar mais umas horas na cama. Sempre quis ficar mais umas horas na cama... Com 15 anos contei o número de livros que li nesse Verão e não me lembro o número exacto mas sei que ultrapassou as quatro dezenas. Nessa altura já lia romances, aliás praticamente só lia romances, que apesar da tradução de novels para português nada tinham de romântico porque nunca fui dada a finais felizes.

Comecei cedo a ler Paul Auster. O primeiro livro que li foi o Livro das Ilusões logo que foi lançado e fiquei apaixonada pela sua escrita. Em menos de nada comprei toda a sua obra publicada inclusivé a antologia de pequenos contos escritos por outros e que lia num programa de rádio aos fins de semana. Recebi o Sunset Park como prenda do dia de Reis e é uma vergonha para mim que ainda não o tenha lido, por isso hoje foi a minha escolha óbvia para acompanhar um dos primeiros bikinis do ano. Mas não consegui. Auster tornou-se ao longo dos anos mais complexo, mais acutilante ou talvez eu me tenha tornado assim.  O sol demasiado forte encadeia-me os olhos e as minhas pestanas demasiado longas dificultam o processo de ler com os olhos semi cerrados. Por isso abdiquei do sol porque um Auster não merece ser lido assim aos tropeções e sim com toda a atenção que lhe posso dedicar. Ao arrumar a esteira de madeira, a toalha, o creme solar e tudo que me acompanha na minha "tanorexia" assolou-me um pensamento que fez ter vontade de ligar o computador e escrever este texto: se eu pudesse escolher com quem e onde jantar a minha resposta seria sem dúvida com Paul Auster e a sua mulher Siri na casa onde vivem em Brooklin. E entretida nesse pensamento subi as escadas de pedra que separam a relva onde me deito ao sol da rede onde estou agora.

Imagino que demasiado nervosa por estar com uma pessoa cuja escrita admiro falaria demais nesse jantar e diria coisas sem sentido. Quando lemos muito uma pessoa ficamos com a falsa sensação de a conhecer, mas a verdade é que qualquer escritor fala de si nos seus livros e Auster não é excepção. Recordo quando li a Trilogia de Nova Iorque e o episódio em que alguém liga para a casa do personagem principal e diz: -Estou a falar com Paul Auster, o escritor? E recordo também como na altura pensei em como Auster era grande por ter feito deste detalhe a mais deliciosa forma de imodéstia merecida.
Por isso se fosse jantar com Auster e a sua mulher provavelmente iria falar demasiado de mim para não cair na tentação de falar demasiado dele. Julgo que talvez não fosse necessário porque ele o faria com naturalidade mas caso não acontecesse de certeza que sei do falariamos. De cinema. Sim, porque não há ninguém que descreva um filme e que me impressione tanto como Paul Auster e eu não sou facilmente impressionável. Não quereria debater os seus livros para ficar com a mesma incómoda sensação/ desilusão que fiquei quando conheci a casa de Anne Frank da mesma forma que não lhe iria pedir que me autografasse um exemplar por não achar graça a esse acto.

Aconteceu-me uma única vez, com Luis Sepúlveda na apresentação de um livro dele que não consegui passar da vigésima página por achar demasiado mau. Na apresentação do livro que fui enquanto jornalista, ainda hoje guardo essa reportagem no caderno de couro onde estão as minhas primeiras peças publicadas, percebi logo que não iria gostar do livro. E enquanto ele o assinava só pensava que azar o meu em não ter trazido o Diário de um Killer Sentimental, livro de que realmente gostei e me fez apaixonar pela sua escrita. Qual acto irrefletido, ataquei o último livro que tinha lido dele, Uma História Suja, como sendo demasiado de esquerda e acusei-o de ser o Chomsky da América Latina, ao que ele me respondeu ser um elogio e que lamentava que eu não gostasse de toda a sua obra, mas que não podiamos gostar todos do mesmo. E desde aí nunca mais li Sepúlveda. E por isso Auster no nosso jantar imaginário com a sua mulher também escritora na casa de Brooklin, não iria assinar nenhum dos exemplares que possuo da sua obra nem tampouco debater as ideias que retirei e que tanto me inspiraram de cada livro. Aconteceu com Anne Frank, aconteceu com Sepúlveda, não o iria permitir que acontecesse com Auster. O tipo de escritor que me consegue levar para a sombra num dia de sol como este.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

O meu provincianismo gastronómico.



Desenganem-se aqueles que acham que por eu gostar de coisas de princesinha e até ter um outro blog que fala de trapos que sou sofisticada no que toca a comida. Que me podem pôr à frente uma ementa de cozinha internacional e que eu vou escolher com distinção o prato mais requintado e alternativo da carta. Desenganem-se mesmo. Sou uma saloia gastronómica. Começo por ser uma esquisita que não gosto de nada. Não gosto de sushi apesar de ter tentado várias vezes, aliás não aprecio peixe de forma geral. Não gosto de sopa nem de legumes. Salada só mesmo de tomate. Coisas verdes só pimentos padrão. Já passei fome numa boa dezena de paises. Em Marrocos, Tunisia, Turquia, Egipto e Bulgária alimentava-me a omeletes. Em Israel, comer ovos era mais complicado por crenças religiosas e alimentava-me mesmo a fruta, tanto que apanhei um virus por esta não ser bem lavada. No Brasil comia carne grelhada apenas porque não gostava nada do resto das coisas que por lá inventavam. Em Espanha vou me safando com as tapas e alguma carne e em França foi o país onde terei comido melhor, apesar de ter odiado de morte a refeição em decidi comer o que de mais tipico havia. Imaginem Inglaterra.

Lamb? No please, no more lamb. A carne não tinha qualidade, as cebolas não tinham cor, o azeite não tinha aroma. Imaginam um refogado sem cheiro? Foi a minha vida durante 1 ano. A comida não tinha tempero e detesto o puré de batata grosso deles, mais os purés de cenoura, maçã, beringela e tudo aquilo que estiver a jeito. É normal portanto que tenha emagrecido 10 kilos mesmo cozinhando em casa muitas vezes e sim, dava-me ao trabalho de fazer assados e feijoadas só para me deliciar sozinha. Quando a minha irmã me mandava uma alheira pelo correio, era uma felicidade que não imaginam...

Sou uma básica a comer... Gosto de carne, mas não me ponham molhos elaborados que ponho logo de parte. Gosto de arroz mas por favor tirem-me da frente risotto que me deixa agoniada. Gosto de ameijoas, caracois, percebas e adoro camarão tigre, mas não mexo um dedo para ir comer uma lagosta. Não gosto de doces, olho a melhor pastelaria francesa com um ar absolutamente indiferente. Gosto de massas mas só aquelas bem básicas com carne picada, queijo e natas ou vinho, alho e marisco. Morria se comesse um bife tártaro mas adoro os miolos do cabrito e do leitão... Sou tão saloia que a melhor coisa que me podem dar quando estou com fome é chouriço assado na brasa, croquetes de carne ou um prego no pão com queijo e fiambre. Mas o que eu gosto mesmo e me dá prazer comer (porque adoro comer, como adoro cozinhar) é aquilo a que o Miguel Esteves Cardoso chamou recentemente "comida de puta". Salsichas, batatas fritas descascadas à mão com dois belos ovos estrelados. Fico no céu.

Por isso se alguém me quiser levar a jantar e impressionar, já sabem. Levem-me à casa do vossa mãe!

quarta-feira, 30 de março de 2011

Sonhos de um Natal do Futuro...


Segundo dia na cama doente. Primeiro sonhei com carteiras. Carteiras no sono profundo durante a noite, caretiras durante a sesta à tarde. Carteiras e mais carteiras e eu no meio delas, a sorrir de forma parva como só uma mulher consegue aparvalhar com carteiras. Depois passou mais um dia sem ir trabalhar. Trancada em casa, aborrecida, a sentir-me inutil. O sono chegou rapido, tal como a febre, as dores no corpo... E passei a noite a sonhar que era Natal. Era Natal e eu ia passar o Natal sozinha. Uma e outra vez. Algumas pessoas convidavam-me mas não era possivel por uma ou outra razão. Eu apercebia-me de que ninguém me queria realmente nas suas casas. Que não tinha uma família no verdadeiro sentido da palavra. Eu era uma mulher perto dos 30 que ia passar o Natal sozinha. Mas não chorava não pensem. Apenas passava os dias em desculpas atrás de desculpas a justificar a minha opção (forçada ou não) natalicia. Sim, foi um pesadelo. Será este o meu maior medo, a metáfora para a minha maior angustia. 30 e sozinha? Nada indica que isso aconteça mas então porque sofremos a dormir se já há tanto em que pensar acordados. Sub-consciente do meu coração... Hoje posso sonhar com carteiras outra vez? É tão fácil ser fútil...

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Oscars bet & don't win!


Ora este ano vamos fazer a coisa de uma forma um pouco diferente. Depois de análises extensas e semi-filosóficas, desta toma e muito por força de não ter visto tantos filmes como gostaria vou apresentar as minhas expectativas num esquema de apostas. Uma crença tenho. Esta noite vai ser em função daquilo para que a Academia estiver virada. Já se sabe que todos os anos há uma rajada de vento que parece levar tudo na mesma direcção. (Lobbies diz quem diz que sabe) E assim sendo os vencedores previsiveis podem não ser assim tão previsiveis se a Academia este ano der numas de premiar indepententes, filmes simples, ou um gore tipo o Swan. Isto tudo para dizer: só sei que nada sei... E num ano (once again) sem nenhum filme de nos deixar a vontade de correr para comprar a edicção de coleccionador é assim um bocadinho... Vamos ver o que sai daqui. Mas calma... Oscars são Oscars. Temos sempre os vestidos, os discursos, os espectáculos musicais e este ano até temos James Franco. Querem melhor? Assim sendo aqui vai:

Best Picture

“The Social Network” - 30% probabilidade (Um filme melhor do que aparentemente parece ser. Já falei antes na grande dificuldade que existe em contar histórias simples de forma eximia. Este filme para além de ser irrepreensivel a nivel técnico, conta a história de um ponto de vista original e aperece obviamente no timming perfeito.)

“The King's Speech” - 30% probabilidade (Por ser o mais nomeado. Achei um filme bom mas não 12 oscars bom, mas se a coisa se mantiver dentro do esquema clásssico sairá vencedor.)

“Inception”  -30% probabilidade (Este é seguramente o melhor filme nomeado. Mas é um filme diferente, complexo, que não assenta nos canones da Academia. Será bem entregue a estatueta.)

“Black Swan” - 10% (Guardo um décimo de esperança para este Black Swan. Já sabem que o filme foi uma desilusão para mim, mas é no entanto adorado por muitos. E apesar de ser um género ainda menos consensual do que o Inception, thriler psicológico a cair no gore, podemos ter uma surpresa deste lados).

Directing


“The Social Network” David Fincher - 60% probabilidade (Por ser a melhor direcção e principalmente porque Cristopher Nolan e o seu Inception estão de fora desta categoria. Porque??? É o que muitos se perguntam. Assim sendo Fincher all the way, já o merecia há muito e vai consegui-lo num filme muito diferente de toda a sua filmografia.)

“The King's Speech” Tom Hooper - 30% (Pela mesma lógica do prémio de melhor filme.)

“Black Swan” Darren Aronofsky - 10% (Repito - porque podem querer fazer diferente, e apesar de The Wrestler ser muito melhor do Swan, Aronofsky é um realizador que merece algum destaque. Mas depois claros cínicos como eu iriam perguntar: e o Oscar para o Lynch com Mulholland Drive onde esta. Pois... Diz que que é o vento.)

Actor in a Leading Role


Colin Firth in “The King's Speech” - 50% (Não achei o papel de uma vida mas vai ganhar...) 

Jeff Bridges in “True Grit” - 20% (Só não aposto mais nele porque já venceu o ano passado. Sem dúvida o grande concorrente de Firth.)

James Franco in “127 Hours” - 15% (How cool was to give the firt oscar to the the Oscars host??? E ele até merece e Hollywood adoraaa estas coisas de lágrima no olho.)

Jesse Eisenberg in “The Social Network” - 15% (Irrepreensivel, brilhante até diria eu. É muito jovem e perde por aí mas se calhar nunca fará um desempenho tão bom quanto este)

Actor in a Supporting Role

Christian Bale in “The Fighter” 70% - (Roubou o protagonismo do filme. Bale merece e já nã é a primeira vez...)

Geoffrey Rush in “The King's Speech” - 30% (Na minha opinião tem um desempenho melhor em The King's speech do que o próprio Firth. Adorava que ganhasse, seria provavelmente a estatueta melhor entregue a este filme).

Actress in a Leading Role

Natalie Portman in “Black Swan” -100% (Palavras para quê, sendo a melhor ou não, a imprensa e a opinião pública já lhe entregaram a estatueta, ninguém lhe tira.)
Actress in a Supporting Role

Melissa Leo in “The Fighter” - 65% (The Fighter é um filme de mão cheia em termos de desempenhos, o oscar nesta categoria ficará por aqui.)

Amy Adams in “The Fighter” - 35% (Aspas idem mas com mais crença para a senhora de cima. Antiguidade é posto.)

Animated Feature Film

“Toy Story 3” Lee Unkrich - 100% (Vá... A Academia às vezes pode querer inovar mas não tanto meus senhores!)

Screenplay

Mais uma vez por não ter visto todos os filmes escuso-me a dar opiniões sem fundamento nas categorias técnicas. QUanto aos meus Oscars de eleição, os de argumento, gostaria (não significa: acho que) que o de adaptado fosse para The Social Network e a original para The Inception. Esta é a única categoria onde talvez de The Kids are all right poderá ter alguma hipotese o que me deixaria igualmente satisfeita.


Este ano fui muito simplista, escrevi como quem fala no sofá da sala com amigos e será essa a minha postura para hoje a noite. Não digo "e que ganhe o melhor" porque não acontecerá. Peço então por um bom espectáculo, o melhor do ano em televisão, ora sem dúvida.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Black Swan Review (not a kind one)

* Spoilers*


Leio com perplexidade que Aronofsky diz que este filme pode ser interpretado como uma sequela do The Wrestler. Pelos sacrificios do corpo diz ele. The Wrestler não merece esta comparação. Saí do filme como quem me desse um soco no estomago. Cheguei a casa e liguei a um dos meus melhores amigos, entre lágrimas e desespero disse-lhe: "vamos todos ficar velhos, o nosso corpo vai falhar, vamos ser sombras do que somos". The Wrestler é um filme que caiu no meu goto por primar pelo realismo. Black Swan catalogo num mal conseguido surrealismo.

Mas calma, nem tudo é mau e este filme não tem nota negativa para mim. As expectativas, o Diabo das expectativas, fazem-nos ser mais duros com os nossos julgamentos. Natalie Portman está muito bem, uma performance exaustiva, vivida. Não diria o melhor papel de 2010... Mas aliado ao seu desempenho em Closer a estatueta será bem entregue. Gostei da realização, câmara ao ombro, aqui sim a lembrar The Wrestler. Rendi-me de inicio à fotografia, com um pouco mais de grão que os filmes granulados. Lindissima. E a banda sonora, irrepreensivel, quase ela própria uma personagem do filme.

E depois a desilusão. O filme tem uma permissa excelente: abordar de forma a que não estamos habituados o mundo do ballet. Mostrar o que de mais negro se passa na vida de uma bela bailarina, símbolo de perfeição e feminilidade. O argumento é fraco. E como aprendi já há alguns anos sem bons argumentos é impossivel se fazerem bons filmes. O filme que pretende ser um thriller psicológico cai em cenas desnecessárias de um terror quase gore. A forma como é aproveitada a psicose de Nina cai no ridiculo exagero. Até poderia não ser bem assim se as personagens fossem mais redondas, mas não o são. Mal desenvolvidas, explicadas. A própria Nina, personagem que vai dar um Oscar a Portman poderia ser bem melhor. Um bailarina insipida, que respira demasiado alto, que cansa o espectador. E se uma sexualidade por descobrir pudesse ser aqui a questão, a teoria cai por terra pois após a cena do suposto orgasmo ela continua a dançar de forma contida.
O verdadeiro cisne negro que dever-se-ia ter revelado ao longo do filme, mostra-se nuns curtos 5 minutos de filme. O final? Non Sense. Pretende ser artistico quiçá, a morte dramática que se adivinhava, mas não é o filme já de um dramatismo gratuito para que o final tenha um pouco mais de qualidade? É apenas mais uma incoerencia, a bailarina que parece seguir o destino da sua personagem Odette desde o momento em que ganha o papel mas que quase nunca o mostra. Sim, porque estou a ignorar os sinais óbvios que tiram crédito ao filme como as asas negras tatuadas nas costas de Lili, o "little princess" pelo qual é apelidada no filme do filme... Porque não exploraram melhor esta dicotomia: no fundo Nina é o cisne negro de Beth... Como comecei por dizer uma excelente permissa e um resultado tão aquém...
Cliches? Imensos. O final, a mãe ex bailarina que nunca singrou e que é controladora, a bailarina frigida que após ingerir uns copos e umas drogas torna-se de repente na menina rebelde que faz frente a todos (mas afinal isto é o Alice?), as cenas de sexo que se tornam a certo ponto furtuitas e desnecessárias.
Erros factuais, vários... O Lago dos Cines tem sempre pelo menos 2 bailarinas pois seria fisicamente impossivel que uma suportasse o esforço. Uma bailarina do corpo do bailado NUNCA seria escolhida para prima ballerina até porque, primas ballerinas não são escolhidas através de audiências... A fractura exposta de Beth mostrada de forma anedótica do ponto de vista clinico... Até as próprias cenas de bailado são fraquinhas em si e salvo rara excepções não mostram nada de arrebatador do que eu esperava. Um sem fim de pequenas coisas que me fizeram abanar a cabeça durante o filme e pensar: Damn it, estão a estragar tudo.

Poderíamos pensar nisto tudo como um universo paralelo sustentado pela dupla personalidade de Nina e a sua esquizofrenia. Podiamos pensar num meta-texto. Numa metáfora dentro de outra... Como eu gostaria que assim fosse, mas nenhuma destas mais rebuscadas suposições tem pernas para andar no filme. The plot has so many flaws as Nina herself... Entristeceu-me. Por Portman e pricipalmente por Aronofsky.

Atenção! Eu gostei de ter visto o filme, principalmente para seguir a filmografia de Aronofsky e para poder formar uma opinião sobre o tão balado filme. Compreendo porque tanta gente o tenha adorado, mas eu... Esperava muito mais e talvez daí esta critica seja tão dura. Mas esta não é uma critica a um qualquer filme que está no cinema. É uma critica a um filme que está nomeado a 5 oscares e tem a média de 8,6 estrelas no IMDB. Quem estará errado, eu ou o resto do mundo que o aplaudiu? Como disse, não é um mau filme. Eu é que sou exigente com os meus padrões. 13/20