quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Muitas vezes farto-me das pessoas. Outras, que é bem pior, farto-me de mim.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

|da paixão


Nunca pensei casar-me apaixonada. Senti muita paixão na minha vida. Paixão ferverosa, que consome e corrói. Paixão adolescente, independentemente da idade. Amor à primeira vista não existe, paixão sim. Amor vem de fininho e conquista-nos, quando damos conta já lá está. É oficial, amamos alguém.
Sempre pensei que ia casar com alguém que amasse muito, de outra forma não poderia ser. Amor fraterno, amor leal, amor de uma vida e para a vida. Mas paixão? Essa transforma-se no irmão mais velho e visita-nos de vez em quando em ímpetos  menos controláveis.

Até que numa quinta feira de um ano qualquer.... Chega a pessoa que me apaixonei, amei e mudou a minha vida. A pessoa que olho e digo... Só faz sentido assim, só tinha de ser com você. E amo, amo muito. Discuto, berro, bato com a porta, mando dormir no sofá. Choro, rio e abraço, abraço tanto como nunca abracei ninguém. Sou muito feliz. E hoje, na minha cama adolescente de Hello Kitty, com um copo de vinho tinto a meu lado, na noite antes do meu casamento, posso dizer: que sorte, a minha sorte... Parece uma mentira cinéfila e por magia aconteceu comigo. Casar-me apaixonada, quem diria. O meu homem, o meu tudo. O meu ímpeto adolescente em formato adulto. Vou-me casar apaixonada com o meu amor. E não prometo nada, a não ser que prometo (batalhar-ser) feliz. /relato de uma noiva semi-alcoolizada a 16 horas do seu casamento

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Rascunho

Sabem quando vão assinar o vosso nome e de tarefa tão repetida, ao invés de escreverem todas as letras na mesma (mais ou menos) apurada caligrafia, desleixam-se a meio e com a pressa fazem um rascunho rápido na folha? Como se não tivessem paciência para desenhar todas as letras, em algo tão vosso como a vossa assinatura. Às vezes a vida é pura e simplesmente assim: um rascunho. Um gatafunho rápido e confuso do que deveria ser tão claro como a própria identidade pessoal.  

(preciso de paciência para mim)

domingo, 26 de fevereiro de 2012

The Artist, The Descendants & The Help. And the Oscar goes to....



The Artist é um filme majestoso. Um filme sobre cinema, sem dúvida um dos meus meta-textos favoritos, com o extra de ser um filme mudo sobre cinema mudo, matrioska effect. A cena do pesadelo com som é uma das mais bem conseguidas de todo o filme e mostra-nos o quanto este argumento se consegue manter fiel à ingenuidade dos filmes mudos ao mesmo tempo que ousa a vários outros níveis. Parece que The Artist vem trazer algo mais ao cinema clássico mudo, como se fosse um "behind the scenes" ou "director's cut" onde nos nos é mostrado o que os filme da época acabam por não dizer. 
Ao ver o The Artist foi impossível não me recordar de um dos meus livros favoritos de Auster: O livro das Ilusões e ao mesmo tempo do glorioso dia em que a Sociedade Martins Sarmento em Guimarães me proporcionou aos 8 anos uma sessão de cinema (talvez a segunda da minha vida) com o filme Modern Times de Chaplin. O The Artist é um bom filme por vários motivos: pelo excelente argumento, pela fotografia, banda sonora, pelos desempenhos e pela audácia. 
É preciso coragem para fazer um filme destes no Cinema dos nossos dias, no entanto e apesar de ter adorado o filme, ponho em causa o seu impacto em função apenas da diferença que apresenta. The Artist é sim um filme excelente, o desempenho teatral de Jean Dujardin é irrepreensível e um sério candidato a roubar o Oscar de melhor actor a Clooney, mas não estaremos nós perante um fenómeno do estilo The Avatar invertido? Será The Artist realmente o melhor filme do ano ou apenas um excelente filme que fez a diferença em 2011? Saberemos a resposta mais logo.

The Descendants é na minha opinião verdadeiramente o melhor filme do ano. Alexander Payne já nos tinha habituado a este cinema tão aparentemente simples como mordaz. O género comédia-drama com um argumento brilhante a fazer lembrar grandes independentes dos últimos anos como Little Miss Sunshine, Juno ou mesmo Sideways. Os diálogos tão milimetricamente escritos, o efeito murro no estômago após uma gargalhada, a identificação com as personagens que parecem falar tão intimamente de nós, as imagens de um Hawaii tão paradisíaco como surpreendentemente banal a contrastar com os close-ups do rosto da personagem Liz em estado de coma e o eterno sentimento de "viagem de encontro de nós próprios" que os filmes como os supra mencionados nos trazem sempre. 
Costumo dizer que existem dois tipos de histórias: as histórias fantásticas contadas de uma forma simples e as histórias simples contadas de uma forma fantástica. É fácil perceber que as que mais me agradam são as segundas e The Descendants é um excelente exemplo disso. Tenho dúvidas no entanto que a academia tenha coragem de premiar um filme como este. É um filme difícil de ser compreendido tal como ele é pelo espectador comum, é um filme a roçar o cinema independente, com um George Clooney "velho e acabado" a representar de forma brilhante pouco mais do que o papel dele próprio. Um filme de contrastes, triste, duro, pesado, perturbador. "Goodbye Elisabeth. Goodbye, my love, my friend, my pain, my joy. Goodbye. Goodbye. Goodbye." Se vale de alguma coisa foi também o único filme que fez chorar... O prémio para o argumento não lhe escapará, os outros fico a torcer para que também não. 

Por fim The Help, o tipo de filme que que me fez exclamar após o ter visto "assim se faz um Oscar". The Help é de todos os nomeados aquele que teve um maior sucesso de bilheteira e facilmente se entende. É o tipo de história que cabe na primeira definição que dei em cima, fantástica e no entanto contada de forma simples. É um filme sobre um dos temas que mais toca na ferida Americana, a segregação racial e a tomada de posse de consciência social, principalmente numa época em que o chefe de estado em vigor é o primeiro negro a ser eleito presidente. The Help é um filme que vale essencialmente pelo colectivo, não só pelas histórias tão distintas como interessantes do que se passa em cada uma daquelas casas do Mississipi, como pelos actores que juntos formam o melhor elenco de 2011 já distinguido pelos SAG. The Help tem tudo ser o vencedor do ano: faz-nos rir enquanto nos enche o peito de revolta com as injustiças sociais da época; tem um herói e um vilão para além de todo um conjunto de personagens redondinhas e bem trabalhadas (3 nomeações para os Oscars na categoria de interpretações); tem uma lição de moral e um final feliz que Hollywood tanto gosta para além da lição de história e respectivo lembrete a todos os quantos se possam ter esquecido, que um dia nos EUA os negros eram tratados assim. 
Ao olhar para a lista de nomeados no entanto não creio que The Help saia vencedor. A Academia parece-me menos cínica de ano para ano e prova disso são estes três filmes de que falei, tão diferentes uns dos outros, no entanto em quase par de igualdade a nível de qualidade cinematográfica. 

E porquê estes 3 no título do post anual dos Oscars? Porque foram os meus favoritos e sem dúvida os grandes candidatos a melhor filme. Deixo de fora o Moneyball que me pareceu um filme honestamente mal conseguido; The Tree of Life com um excelente argumento, fotografia e desempenho de Brad Pitt (aqui sim) mas que não é um filme para Oscar e que merecerá neste blog um post por si só; Hugo que mostra tão bem o quanto Scorsese é acima de tudo um "cinema lover" mas que não cai no meu goto pelo género aventura/ fantástico; Midnight in Paris que pelas razões que já expliquei aqui me parece um filme demasiado comercial e no entanto extremamente decepcionante; e Extremely Loud & Incredibily Close e War Horse por infelizmente ainda não os ter visto. No ar deixo ainda uma pergunta: Where the hell is Drive?

Bons Oscars para todos. Espero que Billy Crystal cale o mundo ao mostrar que ainda sabe o que faz, ao contrário do que aconteceu no conjunto de péssimas apresentações dos últimos anos. E finalmente que ainda que não ganhe melhor, que esta noite seja riquíssima a nível cinematográfico. 

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

7 coisas sobre mim


1- Fui morar sozinha para o Porto com 16 anos e comprei a minha casa aos 23. No entanto, desde que regressei de Inglaterra e depois de mudar de casa dezenas de vezes desde que nasci, tenho ficado por Guimarães, no conforto da família. Estou a ganhar coragem para voltar a ser totalmente independente e regressar a tempo inteiro à cidade e à casa onde durmo 3 noites por semana mas confesso que não está a ser  fácil.

2- Odeio surpresas. Nem das boas gosto. Gosto de antever tudo, gosto de saber o que se passa à minha volta, gosto de ter tudo debaixo do meu controle. Lido relativamente bem com a imprevisibilidade mas não consigo deixar de sentir, nem por uns segundos, um certo pânico do que virá.

3-  Memória. Para o bem e para o mal tenho uma memória um pouco assustadora. Foi bom na escola, é bom  num contexto de trabalho, é bom poder recordar-me tão bem de tudo. É péssimo não conseguir filtrar o que guardo. Deito-me na cama ao fim do dia e mil frames percorrem na minha cabeça, lembro-me de tudo à exaustão. A roupa que cada pessoa tinha vestido num jantar há 10 anos, o número da página onde li uma frase, o nome das personagens de todos os livros que li, frases após frases após frases que ouvi. Uma parafernália de coisa inúteis que aconteceram no meu dia e que ficam guardadas: rostos, números, sensações. Tudo o que gostaria de esquecer e que o meu cérebro não permite... Alimento a minha mente de ficção à noite para conseguir adormecer. E aí entram os sonhos.

4- Tenho uma actividade onírica durante o sono absolutamente fora do comum. Desde pequena que todas as manhãs me lembro com perfeição do que sonhei durante a noite. E desde pequena que o que sonho durante a noite afecta o meu dia. Tenho sonhos premonitórios, sonhos disparatados, sonhos em que assisto, outros em que sou protagonista. Sonhos a preto e branco, sonhos mudos, sonhos em inglês, sonhos em português. Sonhos em que acordo dos sonhos e volto a acordar. Sonhos em que sei que estou a sonhar e não consigo acordar. Sonhos que se repetem semana após semana, sonhos que são continuidade de outros sonhos, com personagens e cidades apenas dos meus sonhos (como descrevi aqui). Já escrevi um diário do meus sonhos até concluir que tal como Freud disse "Sonho é o que sonhador conta" e como tal apenas no meu intelecto os meus sonhos fazem um pouco de sentido. Atrevo-me a dizer que os meus sonhos (em sono REM) são uma das coisas mais importantes da minha vida.

5- Sou muito desarrumada e ao mesmo tempo extremamente minuciosa e perfeccionista. Não consigo adormecer se souber que há um email que ficou por responder. Que o tapete do quarto está com uma dobra, que  não sei onde está alguma coisa de que ando à procura. E principalmente que não lavei os pés em água bem quente antes de os deitar na cama. 

6- Não falo com o meu melhor amigo desde 2009. Não o deixei de amar mas ele errou e não teve coragem de pedir desculpa. Eu não tive coragem de o procurar. Tenho saudades dele mas tenho medo de o reencontrar. 

7- A coisa de que mais tenho medo no mundo é de mim própria. A seguir tenho medo de insectos, do paranormal e de perder as pessoas de quem gosto.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Mulholland Drive I

"I", porque é o meu filme favorito, porque foi o case-study da minha tese de fim de curso e porque há muito para dizer sobre ele. Para já apenas uma introdução sobre esta obra-prima.



Mulholland Drive: A estrada dos sonhos de David Lynch
“Ao pé de Mulholland Drive, quase todo o cinema parece, de repente, excessivamente cortês e doentiamente sensato. ”
João Mário Grilo in Visão
Mulholland Drive é um filme especial na filmografia de David Lynch porque é o apogeu da sua dedicação à temática dos sonhos. Estes assumem um papel de maior importância em quase todos os seus filmes, seja nos sonhos que as personagens têm, seja na descrição que fazem destes a outros, seja na ténue linha que distingue o que o espectador interpreta como momentos ocorridos em estados de vigilância ou em sono REM. A segunda curta-metragem de Lynch, The Alphabet, mostra uma mulher que durante quatro minutos se debate com um pesadelo em forma de abecedário. Anos mais tarde, Lynch confessou que se inspirou num pesadelo semelhante que a sua mulher teve e ao qual ele assistiu. Outros filmes viriam a ter inspiração em situação reais de sonhos tidos, mas Lynch insiste sempre que o sonho acordado é aquele que tem mais valor na narrativa. Talvez por isso tente, que através de filmes como Mulholland Drive, o espectador possa sonhar, devanear pelas imagens condutoras de pensamentos oníricos.
A ideia surgiu a David Lynch com a visão da placa que anuncia Mulholland Drive, a mítica estrada, em Los Angeles, que serpenteia pelas colinas de Santa Mónica, passa por Hollywood e desagua em Malibu e no Oceano Pacífico. Uma parte é residencial, a outra está abandonada aos fantasmas que nela se foram projectando. A ideia começou com a visão dessa placa a ser parcialmente iluminada pelos faróis dos carros que passam. De noite, é um sítio misterioso, porque aí estão à solta as ilusões perdidas de todas as aspirantes a estrelas que ao longo dos anos perderam a inocência nas colinas de Hollywood. David Lynch descreve Mulholland Drive como uma rua que parou no tempo. Tal como o filme. Ambos intemporais e imortais. Diz que a placa é “um tipo de artifício” que iluminado pela luz mágica de LA faz-nos sentir que tudo é possível.   Iluminado por este pensamento desejou "que as pessoas entrassem nesta viagem por Mulholland Drive, e sentissem qualquer coisa que não se explica". Assim fez um episódio piloto para uma série para a cadeia televisiva ABC. Mas o projecto abortou e só financiadores franceses conseguiram, dois anos depois, que o episódio, com novas cenas filmadas e uma nova montagem, acabasse por ser mais uma participação do realizador na competição de Cannes. 
Para Lynch as ideias não habitam dentro das pessoas e sim voam à sua volta como se de pequenos insectos se tratassem. Uma dessas ideias era o de desfecho de Mulholland Drive e em apenas meia hora num fim de tarde Lynch imaginou todo o filme: “Mistérios são a coisa mais importante para mim e em Mulholland Drive eu não queria saber demasiado sobre como a história iria acabar. Se eu soubesse tudo, começava a ficar aborrecido. E quando tu vives com uma solução por demasiado tempo… É simplesmente uma desgraça.”

domingo, 5 de fevereiro de 2012

A single Man


Nota 18 para este filme que (shame on me) apenas vi hoje. Tanto há para dizer mas neste momento estou presa em dois monologos incriveis, o que abre e o que encerra o filme.

Este porque traduz a pessoa que sou hoje:

“Waking up begins with saying am and now. That which has awoken then lies for a while staring up at the ceiling and down into itself until it has recognized I, and therefrom deduced I am, I am now. Here comes next, and is at least negatively reassuring; because here, this morning, is where it has expected to find itself: what’s called at home.”



E este porque representa a pessoa que eu gostaria de me tornar:

“A few times in my life I’ve had moments of absolute clarity. When for a few brief seconds the silence drowns out the noise and I can feel rather than think, and things seem so sharp and the world seems so fresh. It’s as though it had all just come into existence.
I can never make these moments last. I cling to them, but like everything, they fade. I have lived my life on these moments. They pull me back to the present, and I realize that everything is exactly the way it was meant to be.”

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Do Cinema

No facebook do blog do E falava-se sobre cinema. Mal lhe apanhei o rastro não me calei. Discutiam-se as nomeações para os Oscars e alguns filmes especificos. Dei por mim a falar sozinha.

No dia das nomeções eu almocei em 3 minutos e meio e corri para o carro onde fiquei ao sol a ouvir em directo as nomeações na Antena 3. Gritava aos locutores para que se calassem, insultava-os mentalmente por dizerem que Midnight in Paris não era um filme comercial (hein?). E mal digeri tudo senti o meu sangue a correr-me mais rápido nas veias, queria discutir filmes e nomeações, queria trocar ideias, argumentos. Acabei a falar sozinha... Verdade é que contam-se pelos dedos das mãos os meus amigos com os quais posso discutir cinema. E dentro desses aqueles com quem realmente posso ter uma discussão válida. Quase como politica o cinema é um debate muito complexo, mesquinho... Trata-se de opiniões muito intimas e pessoais, pois só assim um filme pode ser apreendido. Tomamos uma crítica a um filme que gostamos como uma crítica a nós próprios. No entanto quando respeitamos a pessoa que está à nossa frente conseguimos trocar argumentos sem que ninguém saia ofendido, intimidado. Defendemos com garras e dentes o que sentimos e eu, tal como a maioria das pessoas que realmente gostam de cinema são de ideias fixas.

No Facebook do E acabei sem querer por entrar em ideias contraditórias com a autora do Palavras Dispersas, uma delas por pura distração minha, quando se falava de filmes "oscarizados" que maior murro no estomago nos deram. Ambas respondemos Slumdog Millionaire, eu pela negativa erradamente ao que me era perguntado. No entando e sem conhecer sinto que gostaria de discutir mais cinema com ela, pois pelo que vejo pelo seu blog gosta genuinamente de cinema, e como não gostar de falar com uma pessoa assim mesmo que as opiniões sejam contraditórias.

Eu tenho um amigo, O amigo do cinema. Aquele que esquecendo os coleguinhas de turma que respiravam, comiam e sonhavam cinema, sempre foi O amigo com quem falei de cinema, vi cinema, discuti cinema. Nunca estamos de acordo e no entanto respeito-o como julgo que ele me respeitará. Porque sei que o ritmo do coração dele acelera quando faltam escassas horas para começar os Oscars. Que tal como eu alimenta a alma e não só de filmes. Que "vai ver um filme" ou invés de "ir ao cinema" (em inglês soa sempre melhor, go to see a film instead of going to the movies).

E o episódio das nomeações dos Oscars assim como hoje do semi-debate no E só me deixou ainda mais clara uma certeza que começa a surgir cá dentro. Eu preciso de cinema na minha vida. Preciso de cinema como de pão para a boca e de tudo aquilo que precisar de cinema significa. E se eu não passar rapidamente a ter cinema a sério na minha vida (já lá vão 2 anos desde o fim dos estudos, 2 anos desde o último artigo publicado na imprensa), eu vou simplesmente dar em louca. Porque cinema... Dane-se a moda, os romances e tudo o resto que tanto gosto. Cinema é a minha vida e não sei como lhe perdi o rastilho mas necessito com urgência de o voltar a encontrar. Sob pena de ficar mais vezes a falar sozinha...

sábado, 3 de dezembro de 2011

Museu Reina Sofia e o que trouxe de lá

Propositadamente perdida em Madrid, absorta num daqueles sítios que nos fazem sentir vivos. Esses edificios carregados de aquilo que nos conta o nosso presente, o nosso futuro e o nosso passado. Aqueles sitios a que alguns com desdém chamam museus. Um museu nunca é só um museu. Um museu é sempre uma viagem. Senão mais, aos nossos sentidos. O melhor de 3 horas passadas no Reina Sofia.


Para uma estudante de cinema é sempre uma excitação encontrar algo referente a Godard. Principalmente Le Chinoise numa televisão sem comando. Daquelas a que agora chamam "caixas" no meio de tantas instalações com tecnologia audiovisual de ponta. Simplesmente emocionante.


Construção, desconstrução. Metáfora perfeita da arte.


Numa instalação de um artista brasileiro sobre a democratização da arte na América Latina, umas palavras que me fizeram pensar. E ter saudade de quem de direito.


...


Bunuel pintado por Dali. Mais precioso ainda o repertório de cartas trocadas entre eles, que não fotografei mas que tive o prazer de ler. Ya lo sabes que Luis, Frederico (Llorca) y Dali son "los" amigos...


O Enigma de Hitler por Dali. Admito que há quadros de Dali cujo surrealismo ultrapassa os meus canones de gosto. Mas este tem tanto de perfeito como de provocador. Focado, asustadoramente focado. Um retrato perfeito da Segunda Guerra Mundial.


Sinto-me infinitamente culpada por não ter memorizado o autor desta fotografia. Em tantas centenas que vi, esta pequena moldura captou a minha atenção. Garanto que são Europeus e que teve lugar nos anos 40. Lamento não saber mais. Suponho que tenha de lá regressar.


É só um iman com a frase de Antoni Muntadas. Mas diz tudo.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Kafka e a Boneca



Esta é uma história veridica sobre Kafka que li no livro "As Loucuras de Brooklyn" de Paul Auster. Poderia até contá-la pelas minhas palavras, como fiz tantas vezes a tantas pessoas de quem gosto. Esta é uma das minhas histórias favoritas e quase todas as pessoas que me rodeiam acabaram por a ouvir pela minha boca num ou outro momento mais nostálgico. No entanto a escrita de Paul Auster é demasiado boa para que a menosprezasse e por isso aqui fica o excerto completo que ontem cheia de sono ainda me vi capaz de transcrever. Atenção às últimas palavras destacadas. Nelas está tudo o que penso sobre literatura, cinema e ficcção em geral. Está tudo o que penso sobre a vida.


 
É o último ano da vida de Kafka  ele apaixonou-se por Dora Diamant, uma jovem de dezanove ou vinte anos que fugiu da casa dos pais na Polónia, pretencia a uma família que aderira ao chassidismo, e que agora vive em Berlim. Dora tem metade da idade dele, mas é ela que lhe dá coragem para abandonar Praga, uma coisa que ele queria fazer há anos. É ela também que se torna a primeira e a única com quem o escritor vive. Kafka chega a Berlim no Outono de 1923 e morre na Primavera seguinte, mas esses últimos meses são provavelmente os mais felizes de toda a sua curta vida. Apesar da saúde deteriorada. Apesar das condições sociais em Berlim: o racionamento de géneros alimenticios, uma forte turbulência politica, a pior inflação da história da Alemanha. Apesar de ele não nutrir a menor ilusão quanto ao facto que já não viverá muito tempo.

Todas as tarde, Kafka vai ao parque dar um passeio. A maior parte das vezes, Dora acompanha-o. Um dia, cruzam-se com uma vida banhada em lágrimas, soluçando até mais não poder. Kafka pergunta-lhe o que se passa e ela diz que perdeu a sua boneca. Nesse instante, o escritori começa a inventar uma história para explicar o que aconteceu. "A tua boneca foi fazer uma viagem", diz ele. "Como é que o sonhor sabe?", pergunta a pequena. "Porque ela me escrevu uma carta", responde Kafka. A miuda parece desconfiada. "E traz a carte consigo?", pergunta. "Não, lamento muito, mas não a tenho comigo", diz ele. "Deixei-a em casa por engano, mas trago-a amanhã." Kafka é tão convincente que a maiuda já não sabe o que pensar. Será possível que aquele misterioso homem esteja a dizer a verdade?

Kafka vai imediatamente para casa a fim de escrever a carta. Senta-se à secretária e começa. Dora observa-o e repara que ela está a escrever a carta da boneca exactamente com o mesmo empenho e tensão com que sempe escreveu a sua própria obra. Se há coisa que ele não quer é defraudar a menina.  Trata-se de um verdadeiro trabalho literário e Kafka está determinado a fazê-lo bem feito. Se conseguir criar uma mentira tão bela quanto convincente, a sua criação suplantará o sentimento de perda da menina, oferecendo-lhe uma realidade diferente, uma realidade falsa, talvez, mas algum de verdadeiro e verosímel segundo as leias da ficção.

No dia seguinte, Kafka não descansa enquanto não chega ao parque com a carta. A menina está à espera dele, e como não sabe ler, é o escritor que lhe lê a carta. A boneca diz que tem muita pena do que aconteceu, mas já estava cansada de viver com as mesmas pessoas o tempo todo. Precisa de deixar o seu pequeno mundo, precisa de conhecer o grande mundo, precisa de fazer novas amizades. Não que ela não adore a menina, porque adora, mas a verdade é que ela está desejosa de ver outras paisagens, e, portanto, têm de separar-se por algum tempo. Por fim, a boneca promete à menina que lhe escreverá todos os dias e a que manterá a par das suas actividades.

É aqui que uma pessoa começa a ficar de corção partido... Já é espantoso que Kafka se tenha dado ao trabalho de escrever a primeira carta, mas, agora, há mais, agora, Kafka compromete-se a escrever uma carta todos os dias, e unicamente para consolar a menina, que para ele não passa de uma perfeita desconhecida, uma criança com quem se cruzou por um mero acaso numa determinada tarde, algures num parque de Berlim. Que espécie de homem faz uma coisa dessas? Ele escreveu as cartas da boneca durante três semanas. Três semanas...! Um dos mais brilhantes escritores de sempre sacrificando o seu tempo, o seu tempo cada vez mais precioso e reduzido, para redigir cartas imaginárias de uma boneca perdida. Dora diz que ele escrevia todas as frases com uma atenção extrema ao pormenor, tão extrema que acabava por se tornar penosa. Diz ainda que a sua prosa era precisa, divertida, cativante. Por outras palavras, aquilo era prosa de Kafka, e, todos os dias, durante três semanas o escritor foi ao parque e leu uma nova carta à menina.

A boneca cresce, vai à escola, conhece outras pessoas. Continuava a assegurar à menian que gosta muito dela, mas sugere que houve determinadas complicações na sua vida que a impedem de regressar. A pouco e pouco, Kafka prepara a menina para o momento em que a boneca desaparecerá para sempre da sua vida. Esforça-se por criar um desfecho satisfatório, preocupado com a possibilidade de aquele encantamento mágico se quebrar, e isso acontecerá, se ele não conseguir um desfecho adequado. Depois de testar várias possibilidades, toma finalmente a decisão de casar a boneca. Descreve o jovem por quem ela se apaixona, descreve a festa de noivado, o casamento na província, até mesmo a casa onde a boneca e o seu marido agora vivem. E é então que, na última linha a boneca se despede da sua velha e muito querida amiga.

Por essa altura, é claro que a menina já não sente a falta da boneca. Kafka oferece-lhe outra coisa para substituir a boneca e, quando as três semanas chegam ao fim, as cartas já a curaram da sua infelicidade. A menina tem a história, e quando uma pessoa tem a sorte de viver dentro de uma história, de viver dentro de um mundo imaginário, as dores deste mundo desaparecem. Porque, enquanto a história dura, a realidade cessa de existir.
 
Paul Auster (2006)